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A História não-contada

08/12/2016
A História não-contada

Caros amigos, convido vocês a fazerem uma viagem comigo. É verdade que o piloto de nosso avião é procurado pela polícia por envolvimento com o tráfico de drogas, mas o que importa é que ele saiba pilotar. Nossa companhia aérea é conhecida pela economia, então colocam combustível apenas para a quilometragem correta até o destino, o que nos deixa muito mais tranquilos quanto ao preço da passagem. Talvez não seja importante, mas já que estamos abrindo o jogo, a companhia pertence a um figurão que faz lavagem de dinheiro com os vôos, mas isso é apenas um detalhe. Por fim, talvez você queira saber, e só talvez mesmo, que a companhia tem três aviões e que dois deles estão quebrados e que este em que vamos viajar não recebeu a devida manutenção. E aí, você topa viajar comigo? Há alguns dias, mais de 70 pessoas perderam a vida num vôo da empresa LaMia, da Bolívia, e praticamente ninguém foi informado sobre os pequenos detalhes discorridos acima.

É como se vivêssemos uma história paralela. Só ficamos sabendo dos problemas da companhia aérea em que estava a Chapecoense por conta da tragédia. Mas, se os jogadores tivessem ido e vindo sem danos, ninguém saberia dos macabros detalhes que envolviam a empresa, o piloto, o avião. Da mesma forma, vivemos uma vida distante dos bastidores da política, da construção de conchavos, das alianças. Eu fiquei realmente ESTARRECIDO com a capacidade do Senado de afrontar uma decisão da Suprema Corte do país e manter Renan Calheiros como presidente da casa. Aqui, certamente, existe uma história que ainda não foi contada!

O Brasil passa por um momento memorável de sua História. Finalmente começamos a descobrir o que é Judiciário, o que é Legislativo e o que é Executivo. Tem muita gente que ainda está ignorante quanto a tudo isso, mas aos poucos o cenário começa a mudar. Para quem não sabe, o responsável por mandar as pessoas pra cadeia é o juiz. Nos filmes, nos quadrinhos, na vida real, até onde eu sempre aprendi, quando o juiz dá a ordem, cara, é o fim da linha. Mas, como vivemos uma história paralela, Renan Calheiros foi PROTEGIDO pelo Senado Federal.

Se alguém achou difícil prender Eduardo Cunha, ATENÇÃO, Cunha é um amador perto de Calheiros. Suas teias eram mais fracas e ainda assim, fortes o bastante para mantê-lo muito mais tempo do que desejávamos na presidência da Câmara dos Deputados. Calheiros é peixe grande. Sua teia de relações implica numa história cheia de detalhes horrendos e grotescos, uma História paralela, na qual ele é um protagonista ardiloso, que montou uma densa parede de aliados, muitas vezes comprados pelos tentáculos da corrupção. No melhor estilo "se eu cair levo todos comigo", Calheiros foi capaz de desafiar o sistema legislativo do país e, para minha surpresa, o Senado blindou Calheiros. Quando eu era criança, minha vó dizia que tinha uma planta no quintal dela que era venenosa, fazia "aquele" sermão pra não tocar na tal "Comigo-ninguém-pode". Pois é, parece que Renan Calheiros é feito do mesmo material da plantinha.

Assim como no caso da companhia aérea boliviana, há uma trama de eventos concatenados que levam ao desastre certo. Estamos embarcados nesse avião e se não houver um despertar vigilante para com todos, isso mesmo TODOS os políticos, esse avião vai cair. Não é possível que Calheiros enfrente o Supremo Tribunal Federal e a população não se manifeste. Foi uma tremenda articulação política que envolveu, por fim, os três poderes. Ninguém está a salvo nessa História paralela. Se não prestarmos atenção aos detalhes, o que parece irrelevante agora, vai custar caro lá na frente.

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