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Politizados e Fragmentados

03/11/2016
Politizados e Fragmentados

Caros amigos, já foram escritos livros em homenagem à passividade política brasileira. Inúmeras foram as ocasiões em que nos desapontamos com a inércia, com o marasmo político desse país. Porém, se antes era raro alguém falar de política, atualmente é comum ver um taxista discutindo com seus amigos a situação do país. Na banca de jornal, o vendedor precisa concordar com o comerciante para, logo em seguida ouvir as ideias do professor da escola pública. Na escola, os amiguinhos que outrora brincavam de figurinha ou falavam de videogame, namorados e celular, podem, muito bem, até discutir sobre ideias políticas.

Não estou me referindo ao fundamento das ideias políticas. Certamente a gente encontra muita gente falando bobagem. Tampouco a politização alcançou todos os setores da sociedade. Entretanto, é notável como a sociedade brasileira politizou-se. Não em qualidade talvez, mas em quantidade. Essa politização, porém, trouxe também um problema. Devido a baixa qualidade da construção do saber político, as opiniões ainda podem ser pobres, mas elas estão aparecendo. Isso é sempre importante, especialmente se considerarmos que até muito pouco tempo atrás, dizíamos com tristeza que os brasileiros não se interessavam por política.

Nessa jornada em torno da politização de um povo, a polarização se tornou voraz, por vezes violenta. Não raras vezes parentes e amigos romperam relacionamentos por defenderem perspectivas diferentes de mundo. Os discursos aparecem intensos, muitas vezes vorazes e, em alguns casos, até violentos. A tensão pode ser interpretada de duas formas distintas. Por um lado, a tensão é negativa pois agride, separa. Se vista como um fim em si mesma, a polarização política cansa, destrói e acirra os ânimos. Mergulha o país num silêncio incômodo que só é quebrado quando se conversa sobre seu próprio ponto de vista junto aos seus. Não há diálogo.

Mas existe uma outra perspectiva. Quando essa polarização é superada. Isso não significa que ela deixe de existir, mas que as ideias, bem como as pessoas, viviam no mesmo espaço. Atualmente, seja a direita, a esquerda, pra cima ou pra baixo, cada grupo acredita que defende a verdade, a liberdade, o certo. Essa convicção estúpida e anticientífica impede o diálogo, justamente o cerne da política. Isso não significa que as pessoas devem abrir mão de suas convicções, mas sim ter uma visão menos arrogante do poder de suas próprias ideias. A arrogância é o pano de fundo de toda essa polarização. Se os brasileiros conseguirem superar essa fase de divisionismo do nariz empinado, é possível que haja um ganho político real na construção de uma mentalidade política nacional.

Enquanto professores, pais e sociedade pregarem o ódio ao outro, seja pelo motivo que for, haverá uma chance diminuta de colhermos bons frutos dessa fase de nossa História.

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