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Evo Morales e Jânio Quadros, entre presentes e condecorações

10/07/2015
Evo Morales e Jânio Quadros, entre presentes e condecorações

Caros amigos, em 1961 Jânio Quadros assustou boa parte do mundo quando convocou Ernesto “Che” Guevara para dar-lhe a maior condecoração brasileira, a Ordem do Cruzeiro do Sul! Foi estranho sim, pois o Brasil era o principal parceiro dos EUA no continente, justamente no contexto da Guerra Fria. Note-se ainda que Cuba havia acabado de realizar sua Revolução Comunista (1959), aliando-se à URSS e, portanto, desafiando o poder dos estadunidenses. Figura central na revolução em Cuba, Che Guevara foi saudado por Quadros que, diga-se de passagem, já havia ido a Cuba durante campanha eleitoral para associar sua imagem com a de Fidel Castro.

A condecoração de Quadros a Guevara trouxe desconforto para a diplomacia brasileira diante dos Estados Unidos. Mais estranho ainda foi o presidente brasileiro, dias depois, discursar em favor dos parceiros capitalistas do norte! Era uma confusão total.

Um constrangimento semelhante se deu com a visita do papa Francisco I a Bolívia, no começo de julho de 2015. O presidente boliviano, Evo Morales, presenteou ao papa com uma escultura de uma foice e um martelo, símbolo do comunismo, com a figura de Jesus Cristo crucificado no martelo da escultura. Claro, vamos tentar compreender sob o prisma mais belo possível. A sugestão de Morales poderia ser a de que Jesus, um líder espiritual pobre, que defendeu a repartição dos bens, aprovasse o comunismo. Mas, sem dúvida alguma, o gesto pode ser interpretado ironicamente ou mesmo agressivamente.

É notório que nos Estados que adotaram o comunismo, a prática religiosa era vista como perniciosa, especialmente quando levamos em consideração a clássica frase de Karl Marx: “A Religião é o ópio do povo”. Cristãos foram perseguidos na URSS, podendo ser presos, degredados ou mortos! Assim, presentear o papa com um símbolo comunista, poderia ser visto como uma afronta.

Mas, tem também o lado icônico da Igreja de receber um símbolo do comunismo. Justo ela, dona de um vasto patrimônio artístico – são mais de 120 mil objetos nos museus do Vaticano -, dona de mais de 100 mil propriedades somente na Itália e uma carteira de investimentos superior a R$ 8 bilhões! Será que não é muito para um país com pouco mais de 800 habitantes?

Quem sabe os presentes, as condecorações, sejam formas de políticos, figuras ilustres darem e receberem recados. Considerando que Francisco I é um papa bastante popular e reconhecidamente mais humilde que seus antecessores, o silêncio ao receber o presente enviesado foi de genial diplomacia. A criatividade não tem limites. O que daríamos então para nossos políticos? Bananas?

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