HISTÓRIA GERAL

8. Grécia

8. Grécia

Se existe um povo que influenciou todo o pensamento do mundo Ocidental, esse povo é o grego. Os Gregos, ou helenos, nunca se configuraram num grande império. Organizaram-se em cidades-Estado independentes, com sua própria estrutura política, mas, que dividiam aspectos culturais importantes, como a religião e a própria língua.

A Hélade, região em que se situava a Grécia Antiga, é um território montanhoso e rochoso, o que dificultava sobremaneira o estabelecimento de uma agricultura extensiva. Era preciso uma propriedade muito grande para que houvesse terra suficiente para a manutenção de uma família. Os gêneros agrícolas que melhor se adaptaram a essas circunstâncias foram a parreira e a oliveira, que possibilitavam a produção de vinho e azeite suficiente para realizar comércio com outros povos.

Ainda sobre a geografia da Hélade, é importante compreender que o território bastante recortado favorece a criação de portos naturais, um elemento importante para a economia de todos os helenos. Creta, uma ilha ao sul da Hélade, pode ser considerada a região que oferece a gênese da História da Grécia Antiga. Ocorre que nessa ilha surgiram civilizações marcantes como a Egeia, destruída por razões, em grande medida desconhecidas. Os Egeus foram os primeiros habitantes da Ilha de Creta, se dedicavam a pratica da agricultura e pastoreio de bois e cabras.

Outra civilização importante surgida na região foi a civilização cretense. Acredita-se que uma série de terremotos haja abalado a região e favorecido a chegada de povos que seriam denominados de cretenses. Essa civilização a ilha em quatro regiões, sendo norte, sul, central e oeste. Também dependia do comércio e teve forte contato com os fenícios. A principal cidade de Creta era Cnossos, apesar de haverem outras unidades importantes. Havia ali um rei que administrava toda a região. Os cretenses construíram imponentes prédios com até quatro andares.

Porém, no século XIV a.C., um terrível terremoto, seguido de intensas erupções vulcânicas foi responsável por destruir a infraestrutura de boa parte da ilha. Milhares morreram, e, apesar de os cretenses não desaparecerem, enfraqueceram-se.

É justamente nessa ocasião que um novo povo invade a Hélade e chega até a ilha de Creta, eram os Aqueus que foram responsáveis por estabelecer a civilização Minóica, supostamente pelo fato de o cargo de rei ser denominado de Minos. Posteriormente a Hélade foi invadida por Jônios e Eólios. Os dados arqueológicos nos permitem afirmar que os três povos habitaram em paz na região e tinham muito em comum, como sua forte tendência para a arte, a ciência, a filosofia. Entre 1300 a.C. e 1200 a.C. teria então ocorrido a Guerra de Troia, um atrito entre gregos e troianos que, segundo Homero, teria sido causado pelo rapto de Helena, esposa de Menelau, por Páris, filho do rei Príamo, de Troia. Algumas explicações mais técnicas julgam que, se o rapto realmente aconteceu, foi a gota d’água num atrito que envolvia o controle comercial da região.

Essa fase de invasão de povos à Hélade é denominada de Período Pré-Homérico, e vai do século XX a.C. até o século XII a.C.. Entre 1150 a.C. e 1100 a.C., um povo vindo da Macedônia invadiu a Hélade. Os Dórios, como eram denominados, eram belicosos, isto é, voltados para a Guerra e sua invasão provocou a fuga em massa de Aqueus, Jônios e Eólios. Esse episódio é conhecido como a 1ª Diáspora Grega.

Aqueus, Jônios e Eólios estabeleceram pólis ao norte da Hélade, na Península Ática, cuja principal era Atenas. Quanto aos Dórios, chegaram a invadir Creta, mas sua principal cidade-Estado era Esparta.

Do século XII a.C. ao século VIII a.C. temos então o chamado Período Homérico, marcado pelo estabelecimento das Pólis ao longo da Hélade. Para compreendermos como uma pólis se forma, é preciso entender que um grupo de indivíduos dá origem a um genos, ou seja, uma família. Um grupo de famílias dá origem a uma fratria que, por sua vez, dá origem a uma tribo. Um conjunto de tribos forma um demos e um conjunto de demos forma uma Pólis. Normalmente, pelo fato de o território da Hélade ser montanhoso e rochoso, os demos ficavam distantes uns dos outros, mas seus líderes reuniam-se no centro da Pólis, a Acrópole, quando eram solicitados a tomar alguma decisão importante para a cidade ou quando iam participar de cerimônias religiosas.

As duas principais cidades-Estado da Grécia Antiga eram Atenas e Esparta. As duas ditavam a liderança de suas regiões e têm modelos políticos bastante distintos, por isso, vamos trata-las separadamente.


Atenas


Atenas foi fundada pelos Jônios. Era uma cidade mercantil, mas que dependia da produção agrícola de gêneros como o azeite, o vinho, e mesmo alguns produtos manufaturados, para sua sobrevivência no comércio.

Os lotes de terra deveriam ser grandes, tendo em vista a hostilidade do terreno, então, muito terreno simbolizava uma produção apenas suficiente. Por isso, os donos de terras ocupavam um lugar de destaque em Atenas, eram os chamados eupátridas, ou bem-nascidos. Estes nunca punham as mãos na terra, afinal, o trabalho braçal estava abaixo de sua “dignidade”, para isso, tinham os escravos.

Sendo assim, donos de terras tinham tempo hábil para envolver-se com a política, a atividade mais nobre da qual um ateniense poderia participar. O envolvimento político garantia a cada ateniense o status de cidadão.

Abaixo dos eupátridas, que compunham a elite social, vinham os metecos. Estes eram comerciantes ou estrangeiros, sem direitos políticos. Não eram necessariamente mais pobres, poderiam fazer fortuna com o comércio, mas não poderiam ter direito à participação política pois não eram nascidos em Atenas ou não dispunham de tempo livre que pudesse ser dedicado à administração da pólis.

Por último, vinham os escravos, essenciais para a produção, mas, acima de tudo, para a manutenção do sistema social e produtivo de Atenas. Haviam dois tipos de escravos em Atenas: os absorvidos em guerras e qualquer pessoa que viesse a contrair uma dívida, mesmo cidadãos. Isso era possível se, para produzir, um cidadão tomasse empréstimos e a terra não produzisse conforme esperado.

Em Atenas, as mulheres viviam circunscritas à vida doméstica, ou seja, administravam a propriedade, cuidavam dos filhos, comandavam os escravos. Esperava-se que os homens cumprissem seu papel de sustentar a família.

Com relação à educação, os atenienses investiam centralmente no saber acadêmico. Valorizava-se a filosofia, raiz dos demais saberes.

Politicamente, Atenas atravessou mudanças constantes e significativas. A princípio, desde o período Pré-Homérico, Atenas era governada por um Basileus, um governante que centralizava os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Entretanto, uma série de crises vividas em Atenas foram esvaziando o poder do Basileus que chegou a ficar relegado a um magistrado, juntamente com outros magistrados, os chamados Arcontes. O Arcontado foi criado ainda na monarquia para ser um cargo Jurídico e vitalício.

É importante lembrar que a condição das terras em Atenas obrigava aos pais legarem suas terras aos filhos mais velhos. Sendo assim, os filhos mais novos dos cidadãos passavam a ser metecos, deveriam buscar seu sustento no comércio. Com o avanço da marinha ateniense, estes passaram a buscar terras ao norte e ali se fixaram, onde passaram a exigir a retomada dos direitos de cidadãos, tendo em vista que haviam se tornado proprietários. Esse episódio, de deslocamento populacional para o norte em busca de novas terras é denominado de 2ª Diáspora Grega.

Instaurou-se uma crise política, fruto das disputas entre novos e velhos cidadãos. Essa crise política abriu espaços para o declínio dos poderes do Basileus e o estabelecimento da chamada Tirania de Psístrato. Vale ressaltar que Tirania aqui sugere um governo de manipulação política, favorecendo as camadas mais baixas da população, em detrimento da autoridade dos eupátridas. Os filhos de Psístrato, Hípias e Hiparco, não tiveram habilidade para manter o poder do pai e Atenas começou a passar por um período de Reformas Políticas. Esse período é conhecido como Período Arcaico, e durante as reformas políticas, Atenas foi governada por uma elite política, a oligarquia. No início do século VII a.C., o número de Arcontes passou a ser de dez e, mais tarde, com o fim da monarquia, o basileus foi incorporado ao Arcontado.


Dentre os reformadores de Atenas, vamos citar os principais:

  • Drácon, legislador ateniense do século VII a.C., atendeu a uma solicitação antiga da cidade, desenvolveu um conjunto de leis e as escreveu. O Estado passou a ser o administrador da justiça. A violação das leis implicava em duras penas. Na prática, no entanto, nenhuma transformação significativa atingiu aos reclamantes de cidadania.
  • Sólon, legislador entre os séculos VII e VI a.C., também promoveu reformas políticas. Sólon ainda acabou com a escravidão por dívidas DOS EUPÁTRIDAS, pois meteces ainda poderiam ser escravizados em caso de descumprimento de suas obrigações financeiras. É importante salientar, porém, que no governo de Péricles, no século V a.C., cidadãos eram escravizados. No dinamismo da sociedade ateniense, as detemrinações legais foram suplantadas pelo comportamento civil. Para a participação política, o nascimento deixou de ser o mais importante em detrimento censitário.
  • Clístenes, legislador do século VI, promoveu a participação de todos os cidadãos – atenienses maiores de 18 anos – na Eclésia, que decidia os indivíduos que ocupariam cargos em outras instituições. Além disso, aumentou o número de membros da Bulé para 500. Clístenes pretendia estender a participação popular. É importante ressaltar que mesmo com tais medidas, apenas 10% da população ateniense esteve envolvida com a administração pública. Esse modelo político passou a ser denominado de democracia.


A partir de então o poder em Atenas passou a ser distribuído da seguinte maneira:


Poder Legislativo: Era exercido diretamente pela Eclésia, ou seja, por todos os cidadãos, que votavam nas leis desenvolvidas pela Bulé, o conselho dos 500, que também era parte do poder legislativo. Os membros da Bulé eram sorteados entre os membros da Eclésia todos os anos.

Poder Executivo: A Eclésia escolhia por sorteio, anualmente, 10 magistrados para serem membros do Arcontado e 10 magistrados, eleitos, para serem os Estrategos. O Arcontado tinha a função de fiscalizar as leis, cuidar da religião e presidir tribunais. Os estrategos tinham função militar.

Poder Judiciário: A Eclésia escolhia, por sorteio, seis mil juízes que se dividiam entre o Helieu e o Areópago. No Helieu julgavam-se casos vulgares, cujo júri variava de acordo com a importância da questão. No Areópago julgavam-se casos de homicídio, questões religiosas, etc.


Esparta

Esparta tinha uma estrutura social diferente, se comparada a Atenas. A estrutura social era composta por esparciatas, a elite social, dona de terras, seguida por periecos que eram os comerciantes e estrangeiros e, por fim, os hilotas, que eram os escravos. As mulheres tinham passe livre por toda a Esparta e até mesmo, em alguns casos, até poderiam se manifestar no Conselho, também conhecido como Ápela. Isso não significa que pudessem votar, mas poderiam ainda se manifestar.

A educação era centrada no exercício militar. Aos sete anos o menino era introduzido no exército, onde seria aprendiz até os trinta anos de idade.

Esparta era administrada por uma Diarquia, ou seja, tinha dois reis, uma para fins civis e outro para fins militares. Abaixo dos reis estava a Gerúsia, composta por anciãos com mais de 60 anos, todos eleitos vitaliciamente. A gerúsia era composta por 30 membros, sendo os dois reis e mais 28 gerontes.

Abaixo da Gerúsia estava a Ápela, composta por espartanos com mais de trinta anos. Toda essa estrutura política era vigiada pelos Éforos, eleitos todos os anos em número de cinco anciãos que davam a última palavra em questões de âmbito mais profundo e delicado, como a declaração de uma guerra, por exemplo.

Foi no Período Clássico, séculos VI a.C. ao IV a.C., que a paz e estabilidade gregas foram ameaçadas por um inimigo estrangeiro. Em parte, devido ao avanço territorial da segunda diáspora, que invadiu territórios alheios, e em parte pelo espírito imperialista Persa, gregos e persas entraram em choque nas chamadas Guerras Médicas.

Era intenção dos Persas subjugar os gregos e fazer destes seus tributários, como mandava a prática persa. Atenas e Esparta lideraram suas regiões em torno de uma resistência ao poderoso e numeroso exército invasor.

Atenas liderou a criação de uma aliança entre as pólis para articular uma resistência mais entrosada e eficaz contra os invasores persas. A Guerra tomou o século V a.C. e envolveu várias batalhas como Maratona, Termópilas e Salamina. A vitória grega levou Atenas a desejar o controle da Hélade, unificada sob seu comando, o que, segundo vários historiadores, foi um gesto de autoritarismo. Especialmente os espartanos não admitiram a ditadura ateniense, constituíram uma aliança com Pólis que se opunham ao domínio de Atenas que ficou conhecida como Liga do Peloponeso.

A Guerra do Peloponeso ocorreu entre 431 a.C. e 404 a.C. e culminou com a vitória Espartana. Mas o domínio dórico na região trouxe instabilidade e nova ditadura. Desde então outras guerras abalaram a região e enfraqueceram a Hélade.

Esse enfraquecimento proporcionou condições para a invasão militar do Império Macedônico que vinha do norte. Organizados e com um exército disciplinado, as tropas de Filipe II da Macedônia conseguiram o domínio da Grécia.

Algo interessante ocorre aqui. Os Macedônicos absorveram a cultura grega ao invés de imporem seus costumes. Esse fato acabou incorporando o domínio macedônico à História Grega. Com a morte de Filipe II, seu filho, Alexandre, passa a expandir os domínios dos gregos, especialmente em direção à Ásia. O sincretismo cultural fruto dessas conquistas é denominado de Helenização. Observe abaixo o território dominado por Alexandre.

Apesar do incrível sucesso militar, Alexandre adoeceu numa campanha no Oriente e veio a morrer muito jovem, aos 33 anos de idade. O Império grego viria a enfraquecer paulatinamente até a total ocupação dos romanos.

Sem sombra de dúvida os gregos deixaram grande legado para o mundo, especialmente Ocidental. O teatro e seus gêneros, a escrita, a política, a filosofia e mesmo o modelo de prática religiosa sugere, na atualidade, um mundo profundamente influenciado pelos gregos.