HISTÓRIA GERAL

9. Roma

9. Roma

No século VIII a.C. nasceu tímida, como uma vila rural, em meio a sete montes, Roma. Dificilmente alguém poderia imaginar que aquela centro proto-urbano poderia vir a ser o centro do mundo, a cidade mais poderosa da antiguidade, o maior império do mundo.

Há duas versões para o surgimento de Roma, a versão mitológica e aquela que a arqueologia e os relatos históricos nos permitem seguir.

De acordo com a mitologia, Júpiter, deus da Guerra teria se apaixonado por Rhea Silvia, uma sacerdotisa vestal reservada para o culto aos deuses e que, portanto, não poderia ter relacionamentos amorosos ou mesmo filhos. Os encantos do deus parecem ter superado a fidelidade da sacerdotisa que engravidou mas precisou abdicar das crianças, afinal eram gêmeos, que foram, segundo uma versão, deixadas por Júpiter para serem cuidadas por uma Loba. Logo foram encontrados por um casal de fazendeiros que, instruídos por Júpiter, ensinaram as origens das crianças.

Certa feita Rômulo estava fazendo a maquete de uma cidade que planejava fundar, excluindo seu irmão de seu projeto. Ao descobrir os planos do irmão, Remo destruiu a maquete da cidade planejada por Rômulo. Este, por sua vez, lançou-se sobre seu irmão e o matou. Posteriormente Rômulo seria o primeiro rei de Roma. A falta de mulheres em seu reino ainda levaria o impulsivo rei ao sequestro das mulheres sabinas.

Apesar de lendária, essa história ilustra o espírito belicoso de Roma e a tendência dos romanos de colocarem sua cidade acima da própria vida pessoal.

A Sociedade Romana teve a mesma estrutura ao longo de toda a sua história. Patrícios compunham a elite social, normalmente de funcionários públicos e grandes proprietários de terras. Em seguida estavam os clientes, que eram patrícios empobrecidos, normalmente prestadores de serviços para os patrícios. Os Plebeus eram romanos, porém oriundos de famílias menos tradicionais e que praticavam comércio ou prestavam serviços. Por fim, estavam os escravos. Apesar de serem menosprezados, os escravos romanos eram essenciais para a manutenção da vida em Roma. Exerciam absolutamente todos os tipos de trabalho e, se fossem gladiadores bem-sucedidos, poderiam chegar a alcançar sua emancipação ou liberdade.

Desde o período monárquico, Roma contou com a estrutura do Senado, além da utilização da estratégia do pão e circo para manipular as massas populares.

Roma situa-se na Península Itálica, região ocupada por vários povos, dentre eles sabinos, latinos, italiotas, samnitas e etruscos.

A História romana começa no ano 753 a.C. com a fundação da cidade. Sua história divide-se em três períodos denominados por regimes políticos:

Monárquico (753 a.C. – 509 a.C.)

Republicano (509 a.C. – 27 a.C.)

Imperial (27 a.C. – 476 d.C.)

Monarquia (753 a.C. – 509 a.C.)

De acordo com Tito Lívio, historiador romano, Roma teve sete reis. Historicamente é possível confirmar apenas três, os quatro primeiros são, muito provavelmente, mitologia. Fato é que no período monárquico a sociedade romana era controlada por etruscos. Os etruscos eram a nobreza de Roma. Juntamente com as famílias mais tradicionais da Península Itálica, compunham a elite social.

Sabe-se que o último rei etrusco, Tarquínio, o Soberbo, era um tipo de ditador e manipulador. Esteve muito perto de passar por cima da autoridade do Senado, composto pelos patrícios, elite social entre os demais povos, para implantar seus próprios projetos.

Possivelmente Tarquínio desejava enfrentar os gregos, mas o Senado era contra. Tarquínio teria então começado a bajular os plebeus com a finalidade de conduzir a opinião pública. Somado a isso, um dos filhos de Tarquínio, segundo Tito Lívio, chamado Séptimo Tarquínio, teria estuprado a esposa honrada de um senador. A moça teria cometido suicídio, mas não antes de clamar por justiça da parte de seu pai e de seu marido.

A mobilização popular foi intensa e os etruscos acabaram expulsos da Península Itálica. Mas as reformas estavam apenas no começo, pois os Plebeus também passariam a exigir direitos políticos.

República (509 a.C. – 27 a.C.)

Sem sombra de dúvida, a República foi o período mais importante da História de Roma. A estrutura política mudou consideravelmente, bem como um novo sistema econômico alterou mesmo fisicamente o império.

A estrutura política da República contava com pelo menos três instituições básicas que tinham, internamente, suas divisões. O Senado continuava existindo, mas agora com poderes muito maiores. A princípio, contava com cem senadores, que governavam de forma vitalícia, e posteriormente passaram a ser trezentos. Entre os senadores estavam dois Cônsules que, juntos, atuavam como reis e participavam de decisões civis, religiosas e militares.

Haviam também os Magistrados, dos quais os Cônsules faziam parte, mas atuavam dentro do Senado. Além dos Cônsules, haviam os pretores, responsáveis pela implementação e fiscalização da justiça, os questores, que eram os administradores financeiros do Império, envolvidos com os impostos, por exemplo. Haviam ainda os edis, responsáveis pelo abastecimento da cidade e do Império e, por fim, os censores, responsáveis pelo censo da população.

Além do Senado e dos Magistrados, em Roma haviam as Assembleias, que, mais próximas do povo, levantavam as necessidades do povo romano e demandavam a dinamicidade das leis. Haviam três assembleias, a Centurial, composta por militares e organizadas pela condição social dos soldados. Havia também a Assembleia Curial, de viés religioso, e a Assembleia Tribal, que escolhia censores e edis.

Como se pode notar, a distribuição dos poderes implicava numa participação mais ativa da população na política. A tendência foi que esse envolvimento aumentasse, especialmente devido à política expansionista romana que demandava impostos e braços dos plebeus, até então bons pagadores, mas distantes da política. O cenário começo a mudar logo no século V a.C., quando a organização dos plebeus impôs transformações jurídicas em Roma, tais como:

Tribuna da Plebe (494 a.C.): Os Plebeus conseguiram desenvolver uma instituição que, junto ao Senado, tinha autoridade para votar e vetar leis, sem, contudo, ainda poderem propor leis.

Lei das XII Tábuas (450 a.C.): As leis, até então orais e parciais, passaram a ser escritas.

Lei Canuleia (445 a.C.): Passou a ser permitido o casamento entre patrícios e plebeus.

367 a.C.: Plebeus passam a poder ter acesso ao Senado e ao Consulado, algo absolutamente inédito que implicava na possibilidade de ascensão social.

Plebiscito (287 a.C.): Os Plebeus passaram a poder aprovar leis em toda a extensão do Império, ou seja, poderiam propor leis que seriam aplicáveis em toda a extensão do território romano.

Também ocorreu o fim da escravidão por dívidas das elites sociais. Em 366 a.C. detemrinou-se o fim da escravidão por dívidas e sabe-se que em 326 a.C. nenhum cidadão romano era escravo. É importante salientar, no entanto, que romanos, a princípio, eram os habitantes mais tradicionais de Roma, independentemente do povo que ali chegasse. Sendo assim, samnitas, italiotas, latinos, sabinos, dentre outros, poderiam ser escravizados em caso de descumprimento financeiro. Sendo assim, no começo da República, os romanos já não eram mais escravizados, diminuindo com o tempo, o número de escravos dos demais povos que compunham os habitantes tradicionais da Península Itálica.

Em termos de conquistas territoriais, o Período Republicano foi de um crescimento absolutamente espantoso para Roma. Seu território cresceu imensamente. Nesse processo de conquistas, fundamental para a absorção de escravos e terras, Roma enfrentou inimigos valorosos, como os Cartagineses nas conhecidas Guerras Púnicas. Entre 264 a.C. e 146 a.C., Roma enfrentou a grande potência mediterrânica. Cartago era uma poderosa cidade a controlar o comércio no mar mediterrâneo. Destruí-la era fundamental para as pretensões romanas de dominar os dois lados do mar. No que alguns historiadores chamam de o Holocausto Cartaginês, ao final dos conflitos, Cartago estava reduzida a cinzas e seus territórios incorporados a Roma.

As conquistas romanas tiravam muitos pequenos proprietários de suas terras para que senadores e generais romanos possuíssem grandes propriedades. Essas pessoas, com frequência, buscavam migrar para centros urbanos, como Roma, por exemplo. O inchaço populacional foi inevitável, e as crises advindas do mesmo, também.

Para tentar resolver o problema do excesso de gente em Roma – que chegou a ter mais de 1 milhão de habitantes! – Tibério Graco, membro da Tribuna da Plebe, sugeriu uma Reforma Agrária, o que esvaziaria a cidade e ainda garantiria produção de alimentos. A sugestão de Tibério afetava diretamente as posses de senadores, militares e outros membros das elites sociais. Tibério acabou assassinado. Por ser ainda jovem quando morreu, Tibério não tinha filhos e seu irmão, Caio Graco herdou seu capital político. As eleições para Tribuno da Plebe eram anuais e Caio foi bem-sucedido ao propor, além de uma Reforma Agrária, a extensão de direitos políticos a outros povos dominados da Península Itálica e a distribuição de grãos para as populações necessitadas, a chamada LEI FRUMENTÁRIA.

Com forte apoio popular, Caio Graco conseguiu algo inédito, foi reeleito em 122 a.C. e continuou sugerindo reformas que, frequentemente enfrentavam duríssima resistência no Senado e entre outros líderes políticos. Em 121 a.C. Caio Graco não poderia, legalmente, ter um novo mandato e, indignado ao ver suas propostas sendo eliminadas por seus sucessores, ainda tentaria voltar à Tribuna pela violência. Perseguido, teria cometido suicídio.

Os militares em disputa

Como se pode notar, os problemas sociais de Roma insistentemente não eram resolvidos, o que gerava muito desconforto com as massas. Era o ambiente ideal para uma disputa militar entre generais que viam seu prestígio crescer graças às conquistas. Por volta de 106 a.C., o general Mário foi eleito cônsul e estendeu o pagamento de soldo a todos os soldados e um plano de carreira para os militares. Reeleito cônsul várias vezes, Mário descontentava muitos membros das elites sociais que viam seus privilégios ameaçados. Sila, também general, liderava o braço militar dos descontentes com Mário. Ambos estiveram em conflito até a morte de Mário, por volta de 80 a.C., quando Sila assumiu o comando ditatorial da República, algo permitido apenas para situações extremas de ameaça a Roma e apenas por seis meses. Sila retirou-se inesperadamente do poder em 78 a.C. para escrever suas memórias.

Revoltas e Triunviratos

De fato, a situação social de Roma não mudara, de forma que enquanto o território romano aumentava, os problemas sociais eram proporcionais ao tamanho da República. No ano 73 a.C. estourou uma rebelião de escravos, liderada por um gladiador, ESPÁRTACO, que chegou a chefiar um exército de 60 mil homens e ameaçou as fronteiras de Roma. O objetivo dos rebeldes era a volta para suas casas, a liberdade. Mas os senadores, que por várias oportunidades sofreram revezes, precisavam derrotar o movimento caso não quisessem contar com novas revoltas futuramente. No ano 71 a.C. o movimento foi derrotado por Crasso e cerca de 6 mil soldados foram crucificados entre a cidade de Cápua e a via Ápia de Roma.

Para tentar acabar com as rebeliões e os problemas sociais de maneira definitiva, o Senado Romano decidiu dividir o território da República em três zonas administrativas, cujos líderes seriam os populares generais Crasso, Pompeu e Júlio César. Surgia assim, no ano 60 a.C., o Primeiro Triunvirato.

Crasso saiu a combater os Partos, em Harã, atual Turquia e, após uma série de decisões precipitadas e erradas, acabou perdendo vinte mil homens, além de dez mil presos. O próprio Crasso foi morto e sua cabeça e mão direita foram decepadas e levadas ao rei Parto.

Em Roma, Pompeu acusava ao Senado as tendências centralizadoras e populistas de Júlio Cesar. O Senado expulsou Júlio Cesar e elevou Pompeu a Cônsul. General experimentado e contando com a fidelidade absoluta de seus homens, Cesar invadiu Roma em 49 a.C. e Pompeu foi obrigado a fugir para a Grécia e, em seguida para o Egito onde foi decapitado, pois Cleópatra já havia feito acordo com Cesar.

Voltando de forma gloriosa para Roma, Júlio Cesar foi proclamado Ditador vitalício. Além dos poderes inatos ao cargo, Cesar ainda contou com amplo apoio popular ao realizar uma série de obras públicas e estender o direito de participação política aos habitantes das províncias conquistadas.

A concentração de poderes foi fazendo de Cesar um líder arrogante, crente de ser ele mesmo uma divindade. Toda essa postura garimpou inimigos dentro do Senado. Pelo menos trinta senadores planejaram o assassinato de Cesar. No dia 15 de março de 44 a.C., na Praça Argentina, mesmo com outros senadores tentando avisá-lo do engodo, Cesar foi assassinado a facadas.

Marco Antonio, braço direito militar de Julio Cesar e Otávio, afiliado do finado ditador, disputavam autoridade em Roma. Por um curto período aliaram-se e juntaram-se a um banqueiro, Lépido. A paz durou pouco. Marco Antonio e Otávio eram rivais pelo poder e, entre batalhas e tratados de Paz, Marco Antonio, que chegara a se casar com Otávia, irmã de Otávio, acabou cedendo aos encantos de Cleópatra. Otávio articulou a situação de tal forma que Marco Antonio foi considerado traidor do povo romano. Lépido foi ficando cada vez mais isolado até que perdeu suas atribuições de poder.

Com a aproximação entre Otávio e generais do exército egípcio, Cleópatra logo percebeu que perdera a capacidade de governar. A ordem dos eventos não é muito clara, sabemos, porém, que Marco Antonio matou-se, jogando-se sobre sua espada. Cleópatra teria se envenenado com uma poção preparada para o momento.

Quanto a Otávio, este tornou-se o primeiro imperador de Roma em 27 a.C., acumulando os poderes civil, religioso e militar, interferindo, com frequência, nas decisões do Senado. Morreria em 14 d.C., aos 76 anos de idade.

Império (27 a.C. – 476 d.C.)

Seria impossível estudar aqui todos os imperadores romanos. Por isso, mencionaremos alguns dos mais importantes e tentaremos fazer um apanhado geral dessa fase.

Durante o Império, Roma cresceu territorialmente numa velocidade muito menor do que crescera durante a República. Além disso, problemas internos e externos passaram a ameaçar o equilíbrio da cidade eterna.

Durante o governo de Tibério, segundo imperador, surgiu no leste do império um movimento religioso que desafiava os paradigmas do mundo romano. Esse movimento cresceu e tornou-se o cristianismo, arrastando milhares de pessoas para a crença no monoteísmo e em Jesus Cristo, como salvador espiritual da humanidade. Mesmo a perseguição sistemática a cristãos não foi suficiente para matar o movimento que chegou a Roma. Aos poucos, o cristianismo atacaria as bases da cultura romana, levando em consideração que os cristãos eram contrários à escravidão e à violência, motor da vida romana. Além disso, cristãos observavam a guarda ao seu Deus no sábado, não criam na vida após a morte e não reconheciam imperadores como divindades.

No século I d.C., Roma foi governada ainda por figuras como Nero, responsável por matar mãe e esposas, Vespasiano, responsável por construir o Coliseu e Tito, que promoveu o massacre a judeus no cerco a Jerusalém e Massada.

No início do século II, Adriano construiu muros nas fronteiras de Roma. Esse gesto conservador, que previa determinar os domínios romanos, acabou por mostrar aos inimigos externos que Roma estava interrompendo seu ciclo de conquistas. Os inimigos poderiam aproximar-se das fronteiras do Império. De fato, as conquistas diminuíram muito e manter os soldados nas fronteiras, sem conquistar mais riquezas, passou a ser um fardo cobrado dos contribuintes romanos. Com frequência os impostos eram insuficientes para manter o alto contingente de soldados de prontidão, o que provocava deserções e, consequentemente, dificultava a segurança do território. Além disso, as despesas de manutenção da máquina pública, da burocracia romana eram altas e os ativos já não eram suficientes para cobrir os gastos. O número de escravos diminuiu, o que era catastrófico para a vida romana, uma vez que desde o trabalho agrícola até a construção civil, tudo dependia de escravos em Roma.

Em 235 Roma perdeu a Bretanha, o que sinalizava o início de um declínio sem volta. Diocleciano, que governou Roma entre 284 e 312 emplacou dura perseguição aos cristãos com a finalidade de manter incólume a cultura romana. Além disso, tentou dividir a administração do Império numa tetrarquia, ou seja, o Império seria dividido em duas zonas, cada uma seria governada por um Augusto, assessorado por um César. A ideia nunca emplacou e Diocleciano foi sucedido por um centralizador – Constantino.

Constantino concedeu liberdade de culto aos cristãos no Edito de Milão, já em 313 e começou a trabalhar com a hipótese de transferir a sede do Império para o Oriente. Em 325, no Concílio de Niceia, Constantino determinou a padronização do cristianismo e, em 330, sob as ruínas da antiga cidade grega de Bizâncio, Constantino fundou a Nova Roma, mas o nome não pegou e ficou Constantinopla mesmo.

Em 380, Teodósio transformou o cristianismo na religião oficial do Império Romano, surgia assim a Igreja Católica. O mesmo Teodósio, em 395 dividiria o Império em duas zonas administrativas, o Império Romano do Ocidente, cuja sede seria Roma e o Império Romano do Oriente, cuja sede seria em Constantinopla. A situação não melhorou no Ocidente. Roma continuou enfraquecendo-se até que, em 410 foi invadida pela primeira vez. A custa de espólios e pesados tributos, manteve-se até 476 quando foi invadida de maneira irremediável. Era o fim da gloriosa Roma, o Império inigualável.