HISTÓRIA GERAL

11. Idade Média

11. Idade Média

Em 476 d.C. caiu Roma, o maior império do mundo antigo. A Queda de Roma é entendida mais por suas crises internas do que por conta de invasões estrangeiras. Mas estas, por sua vez, foram implacáveis. Costumeiramente, denominam-se aproximadamente dez povos que invadiram o território romano. São eles: Alanos, Visigodos, Ostrogodos, Vândalos, Anglos e Saxões, Hérulos, Francos, Burgúndios, Suevos e Lombardos.

Esses povos viviam em sistemas tribais e suas sociedades eram profundamente apegadas à terra. Por isso, ao invadirem o território romano, distribuíram-se ao longo do mesmo e conforme a população de cada tribo crescia, ocupavam cada vez mais espaço, chegando, por vezes, a lutar por terras entre as próprias tribos. Foi assim que surgiu o primeiro Império unificado da Alta Idade Média (séculos V – X), os Francos.

Francos

Dinastia equivale a uma família que permanece por várias gerações no comando, no caso, de um determinado país. A primeira dinastia dos francos foi a dos Merovíngios, isso porque o primeiro rei franco – possivelmente lendário – chamava-se Meroveu. Nessa dinastia, o principal rei foi Clóvis I, que governou de 481 a 511, sendo, portanto, rei de muitos romanos após a queda de Roma.

O governo de Clóvis I é marcado por três aspectos:


1) Unificação das tribos francas sob seu domínio.

2) Expansão territorial para toda a região da Gália.

3) Conversão ao cristianismo e batismo.

Os Merovíngios começaram a enfrentar forte crise no século VII, quando os reis, muito fracos enfrentavam disputas entre herdeiros e legavam o governo do Império a prefeitos, administradores das mais diversas áreas no reino. Os próprios prefeitos passaram a disputar o poder enquanto reis cada vez mais jovens assumiam o trono e rapidamente faleciam. Em 687, o prefeito Pepino de Herstal (não confundir com Pepino, o Breve) assumiu o controle do Estado. Ao morrer, o trono foi legado a seu filho, Carlos Martel. Ainda esperava-se que os Merovíngios suscitassem um rei legítimo, o que ocorreu temporariamente quando os filhos de Carlos Martel – Pepino e Carlomano – levaram Childerico III ao trono. Entretanto, em 751, um golpe de Estado depôs o rei e Pepino, o Breve, assumiu o controle do Império Franco, dando origem a uma nova dinastia, a dos Carolíngios.

Com a morte de Pepino, o Breve, o reino franco foi dividido entre seus dois filhos, Carlomano e Carlos Magno em 768. Carlomano morreu três anos depois e Carlos Magno usurpou o trono de seus sobrinhos, reunificando o Império Franco.

Carlos Magno também deixou profunda impressão na História dos francos e na própria medievalidade. Entre seus atos, podemos destacar:


1) Renascimento Carolíngio: Carlos Magno estabeleceu a constituição de Liceus, divididos, basicamente, em duas áreas do conhecimento, denominadas de Trivium – onde se lecionava Retórica, Gramática e Dialética; e Quadrivium – onde se lecionava Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. Um dos símbolos do Renascimento Carolíngio foi a construção da Capela de Aquisgrão.

2) Criação do Feudalismo: Um sistema de distribuição de terras que promoveu o estabelecimento de uma nova ordem social. O rei distribuía terras a nobres que poderiam redividi-las para garantir a produção, o que normalmente se dava em grandes lotes de terra.


Carlos Magno morreu em 814 e foi sucedido por seu filho, Luís, o Piedoso, que manteve o Império unificado até 840, quando morreu. Por sim, seus três filhos, Lotário, Carlos, o Calvo e Luís, o Germânico, dividiram o Império Franco entre si no que ficou conhecido como Tratado de Verdun de 843. Demoraria um bom tempo até o surgimento de um novo império centralizado na Europa, tendo em vista que o sistema feudal criou mecanismos de desagregação de poder.


Sociedade Feudal


Carlos Magno dividiu as terras do Império Franco entre os nobres com a finalidade de explorar o território e garantir a subsistência do Reino. Títulos foram distribuídos entre os nobres de acordo com a função exercida por estes em cada lote de terra. As Marcas, ou seja, as terras de fronteira, tinham a função de garantir a segurança interna dos francos, por isso, os marqueses tinham liberdades militares. Abaixo dos marqueses estavam os condes, donos de um ou mais lotes de terra, bem como castelos, constituíam-se administradores de suas terras. Quanto aos duques, eram responsáveis pelos Ducados e estavam subjugados diretamente ao rei, devendo obediência a este somente.

Haviam responsabilidades mútuas entre o suserano, aquele que concedia o direito de exploração da terra, e o vassalo, aquele que recebe o direito de explorar o território. É IMPORTANTE SALIENTAR QUE SUSERANOS E VASSALOS SÃO NOBRES! Quando um nobre desejava ser vassalo de outro nobre, era feita uma cerimônia bastante simbólica, onde, de joelhos, o pretenso vassalo jura fidelidade diante de várias pessoas e promete oferecer dinheiro e esforço militar aos interesses do suserano. O suserano, por sua vez, concede terras e promete segurança e fidelidade ao vassalo. Sejam suseranos ou vassalos, todos têm sob o seu comando servos que desempenham o trabalho braçal dentro dos feudos. Servos não recebem terras.

Os servos nunca conseguiam acumular capital em condições de ascender de classe social. Sua vida era limitada a produzir para a sua subsistência, o que nos permite denominar a sociedade medieval como ESTAMENTAL, ou seja, não há ascensão social e os papéis de cada grupo são definidos por sua função:


Oratore: Aproximadamente 0,5% da população, cabia-lhes rezar e eram figuras importantes para garantir a ordem social.

Bellatore: Cerca de 1,5% da população. Os que lutam – nobres, dotados de cavalos e armaduras.

Laboratore: Servos da gleba, os que trabalhavam e garantiam o sustento real da sociedade medieval.


A Igreja Medieval

A Igreja Católica surgiu no ano 380, quando, ainda no Império Romano, o cristianismo veio a se tornar a religião oficial do Império. Desde então o clero foi se estabelecendo oficialmente e mesmo se diferenciando em clero secular e clero regular. CLERO SECULAR diz respeito ao clero que está em contato direto com a população, como líderes espirituais, cujo propósito seria o ensino e a direção religiosa. CLERO REGULAR diz respeito aos grupos monásticos que se recolhiam a monastérios e seguiam normas próprias com a finalidade de viver intensamente sua espiritualidade.

A tendência, com a associação entre Estado Romano e Igreja Cristã foi uma desorganização da Igreja. No ano 1075, o papa gregório VII instituiu a Encíclica Dictatus Papae, que gerou profundo desconforto com membros da nobreza medieval. A Encíclica determinava que a autoridade do papa era superior a qualquer poder no mundo e este jamais erraria, jamais podendo, portanto, ser julgado. Esse episódio ficou conhecido como A Querela das Investiduras e só foi parcialmente sarado em 1122, quando, na Concordata de Worms determinou-se que nobres poderiam indicar bispos para suas regiões. O benefício não duraria muito.

A Igreja passou por um processo de organização bastante contundente entre os séculos XI e XII, quando alguns ajustes foram feitos. O nicolaísmo foi vedado ao clero, ou seja, o casamento ou união conjugal. Era uma medida que visava a intenção de manter os bens da igreja dentro da própria igreja e garantir um trabalho íntegro do clérigo ao serviço da própria igreja. Outro detalhe definido pelo Concílio de Latrão, no ano 1139 foi o fim da simonia, ou seja, o fim da venda de cargos e a indicação de clérigos por senhores feudais ou nobres.

A Igreja instituiu ainda a Inquisição em 1229 para lidar com as heresias, filosofias religiosas que se opunham à Teologia ou à prática religiosa da Igreja. É sempre importante lembrar que a Igreja não tinha exatamente o poder de matar pessoas, sendo que as penas capitais eram entregues às autoridades civis. Outras penas, mais brandas, poderiam incluir peregrinação e orações.

Por volta do século XIII, muitos membros do clero também passaram a ensinar nas escolas conjugadas às catedrais e abadias. Após a queda do Império Romano, muito material pedagógico permaneceu em poder da Igreja. Aos poucos, a metodologia de ensino se transformaria, ao ponto de trazer temas novos à tona.


O Sistema de Produção Feudal


O feudalismo era um sistema de exploração da terra no qual a rotação de culturas era praticamente inexistente e, ao longo do tempo, mesmo o pousio foi insuficiente para manter a produção.

Em caso de ataque ao feudo, os habitantes do mesmo se protegiam dentro do castelo, tendo em vista que a função do senhor feudal era proteger seus servos. Os feudos eram divididos em espaços definidos como:


  • Manso Servil: área ocupada pelos servos e onde produziam para si por um ou dois dias por semana.
  • Manso Senhorial: Área que pertencia ao senhor feudal e incluía desde o castelo até as terras em que os servos deveriam produzir os recursos utilizados diretamente pela família do nobre.
  • Terras Comunais: Local em que se situavam os moinhos, o forno, o estábulo, o chiqueiro, o pasto e o bosque. Era uma área acessível aos servos mediante o pagamento de uma taxa: a banalidade.


As taxas dentro do feudo

  • Corveia: trabalho compulsório nas terras do senhor (manso senhorial) em alguns dias da semana;
  • Talha: parte da produção do servo deveria ser entregue ao nobre, geralmente um terço da produção;
  • Banalidade: tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens do feudo, como o moinho, o forno, o celeiro, as pontes;
  • Tostão de Pedro ou dízimo: 10% da produção do servo era pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local;
  • Mão Morta: era o pagamento de uma taxa para permanecer no feudo da família servil, em caso do falecimento do pai ou da família;


É sempre importante lembrar que, com o passar do tempo, os reis que dividiram as primeiras terras foram perdendo poder enquanto os senhores feudais iam ganhando força e prestígio. De forma que o PODER POLÍTICO durante a Idade Média era DESCENTRALIZADO.

Uma curiosidade sobre a sociedade medieval é que haviam profissionais liberais como mercadores que viajavam por vários lugares levando e trazendo mercadorias que vendiam. Haviam ainda artesãos que eram contratados para fazerem armaduras, celas, espadas e escudos.


O sistema feudal funcionou muito bem ao fim da Alta Idade Média. A produção rendeu e a população cresceu. Os bosques, que serviam para caça, deram parte do seu espaço para o desmatamento além da melhoria técnica da produção. Essas melhorias, no entanto, não foram suficientes para lidar com o crescimento populacional!


Crise do Feudalismo


Conforme o alimento ia se tornando escasso, servos foram expulsos de seus feudos para que a comida fosse suficiente para as bocas que deveriam ser alimentadas pelo senhor feudal. Além disso, a crise atingiu a própria nobreza na medida em que os filhos mais novos do senhor feudal passavam a perder o direito à herança da terra. O feudo vinha produzindo de maneira insuficiente então era inútil dividir o território entre todos os filhos, assim, o nobre raciocinava que seria melhor legar toda a propriedade para o filho mais velho. Quanto aos demais, lhes caberia viver da espada, como mercenários ou mesmo viver de torneios onde o prêmio seria dinheiro e, vez ou outra, a mão de uma herdeira feudal e até terras mesmo!

O problema é que tais torneios vieram a intensificar a violência entre os nobres que chegavam a se matarem durante as disputas. A Igreja tentou intervir proibindo as pelejas em dias santos, com a Paz de Deus, no século X, que previa o juramento sob relíquias para não matar, roubar ou estuprar mais, e a Trégua de Deus, entre 1020 e 1040, mas era difícil segurar o ímpeto belicista dos nobres despossuídos.

A providência veio salvar a nobreza feudal do autoextermínio quando turcos seljúcidas tomaram Jerusalém no final do século XI e proibiram a peregrinação de cristãos para a Terra Santa.

O papa Urbano II fez a Santa Convocação e a Europa Ocidental assistiu à formação militar dos Cruzados. As Cruzadas foram essenciais para os Renascimentos Cultural, Urbano e Comercial. A diminuição de servos nas glebas levou muitos nobres a aumentar a opressão dos mesmos para um aumento da produtividade. Essa tensão resultou em frequentes mobilizações dos servos, conhecidas como jacqueries, que recebiam esse nome em função de um personagem fictício denominado de Jacques Bonhomme, ou João ninguém numa tradução livre. Muitos servos foram mortos e a pressão sobre esse grupo continuou intensa.

O comércio desenvolvido com as Cruzadas colocou o Ocidente em contato com o Oriente tanto em aspectos culturais como em aspectos comerciais. Foi dessa maneira que mercadores e mercadorias que vinham do Oriente trouxeram consigo a Peste Negra. Em meados do século XIV, sabe-se que a fome matou milhares de pessoas e a peste dizimou cerca de um terço da população europeia!

Por fim, o ímpeto arrasador da fé conquistadora dos islâmicos os levaria a garantir a posse de Jerusalém e, armados de canhões e pólvora, tomaram, no século XV, o último bastião cristão entre o Ocidente e o Oriente, era a queda de Constantinopla em 1453. Chegava ao fim a Idade Média.


Curiosidades e invenções medievais


A Idade Média foi muito mais do que a tal Idade das Trevas, como apregoavam renascentistas e iluministas. Durante o período em questão muitas invenções foram desenvolvidas e revolucionaram o mundo até o presente. Os óculos, por exemplo, já eram utilizados por volta do século XIII, depois de saber-se que cristais posicionados da maneira correta poderiam ampliar objetos.

O astrolábio, para navegação, também é uma invenção medieval, que remonta ao século XV, no limiar da Idade Média. Vindo diretamente do Oriente, a pólvora foi aperfeiçoada na Europa durante a Idade Média e revolucionou a guerra e os tempos. Falando em tempos, o relógio mecânico também é uma invenção medieval do século VIII!

A higiene não era o forte da sociedade medieval que não sabia o que era escova de dente nem papel higiênico. Os excrementos eram depositados em baldes e depois descartados. Não havia água encanada e o povo era, de maneira geral, bastante supersticioso. Conta a história que quando Carlos Magno estava construindo a Capela de Aquisgrão, faltou dinheiro. Apareceu então um senhor distinto dizendo que patrocinaria o fim da obra, mas exigia a alma da primeira pessoa a entrar na capela. Carlos Magno, bem como membros do clero católico suspeitaram ser trama do Tinhoso. Mas, aceitaram a oferta. No dia da inauguração, jogaram um cabrito dentro da Igreja e uma labareda cortou a igreja de alto a baixo tomando o cabrito e saindo da Igreja. Certos de haverem passado a perna no diabo, a comunidade caçoou do dito cujo.