HISTÓRIA GERAL

12. Cruzadas

12. Cruzadas

As Cruzadas estão no centro de uma das grandes transformações da História. É preciso compreender que o sistema feudal estava em crise na Europa Ocidental. Ocorre que, mesmo com a melhoria de técnicas de plantio e o desmatamento de bosques, a população havia crescido acima da capacidade dos feudos de as alimentarem.

Muitos servos foram expulsos dos feudos, tendo em vista que eram mais bocas para serem alimentadas, e foram morar como párias nos bosques e praticar assaltos na beira das estradas. Os senhores feudais, por sua vez, passaram a dedicar suas terras aos filhos mais velhos, uma divisão da terra diminuiria drasticamente a produtividade de um feudo já em declínio. Por isso, aos filhos mais novos cabia uma herança em moedas ou mesmo bens e deveriam retirar-se da propriedade. Aos filhos mais jovens coube então viverem como atletas de torneios ou venderem seus serviços como mercenários, uma vez que dispunham de indumentária de cavaleiro.

Os torneios eram disputados valendo quantias em moedas ou heranças de terra, quem sabe, até mesmo a herdeira de um feudo. Mas, a História nos revela que a intensidade desses combates passou a semear a vida de muitos membros da nobreza, chamando a atenção da Igreja para a violência crescente. A Paz de Deus e a Trégua de Deus foram medidas tomadas pela Igreja entre os séculos X e XI para impedir a autodestruição da nobreza. Mas como num gesto da Providência, Jerusalém foi tomada por turcos seljúcidas, tribo islâmica que proibiu a peregrinação de cristãos para a cidade sagrada. O papa Urbano II faz a Santa Convocação aos nobres da Europa Ocidental e é organizada a Primeira Cruzada. Para compreender melhor a motivação dessa disputa, vamos olhar rapidamente para quem era os islâmicos e, em seguida compreender o desdobramento das Cruzadas.

Mundo Islâmico

A Península Arábica era, em meados do século VII, ocupada por beduínos nômades em seu interior, que normalmente faziam grandes jornadas em busca de mercadorias para fazer comércio e daí tirar seu sustento. Em alguns oásis espalhados pelo deserto da região, haviam outros beduínos sedentários que plantavam para sobreviver.

Esses grupos eram politeístas e adoravam seus deuses, uma vez ao ano, na cidade de Meca, para onde peregrinavam e adoravam junto à Caaba, uma estrutura quadricular que armazena ali, na sua base, uma pedra negra que, segundo a tradição muçulmana, remonta aos tempos de Abraão, ou seja, uma era pré-pagã.

Muitos comerciantes habitavam em Meca e boa parte destes aproveitavam-se do turismo religioso para vender estátuas das divindades árabes e santinhos das mesmas. Velas eram acesas em homenagem a esses deuses. É justamente em Meca que aparece um rapaz, órfão, criado pelo tio e instruído na arte do comércio. Seu nome, Maomé.

Maomé fazia jornadas comerciais em direção a Damasco, na Síria, passando por cidades como Yatrib e Jerusalém. É justamente aí que Maomé acaba entrando em contato com a mensagem do monoteísmo, a ideia de que existe apenas um Deus. Maomé foi, inegavelmente, impactado por cristãos e judeus.

Teria sido numa noite em Meca que, cheio de reflexões sobre essa divindade una, que Maomé teve um sonho. Sonhou com o arcanjo Gabriel lhe afirmando que, de fato, havia somente um Deus e que Maomé deveria escrever as palavras ditadas por ele. Desse ditado, surgiria o Alcorão, livro sagrado do islamismo.

Maomé começou a pregar a mensagem de Alá aos muçulmanos. A princípio, o desafio não foi grande pois os árabes até admitiam a existência de um Deus invisível superior aos recursos da natureza. Muitos se converteram e, em virtude de sua nova crença, não viam mais a necessidade de peregrinarem a Meca. Os comerciantes da cidade passaram a perder mercado e logo viram em Maomé a raiz da crise econômica, o que provocou sua expulsão da cidade em 622 d.C.. Maomé migrou então para Yatrib – hoje Medina – onde se estabeleceu com sua família e muitos de seus seguidores que o acompanharam na saída de Meca. Esse episódio é denominado Hégira, sendo o ano inicial do calendário árabe.

Porém, Maomé não tinha vida perfeita em Yatrib, nem tampouco seus seguidores tinham vida fácil em Meca. O líder da nova religião organizou um exército e, no ano 627 cercou Meca até toma-la.

Em 631 Maomé já tinha controle de boa parte da Península Arábica. O problema veio no ano seguinte, quando o profeta morreu, pois não havia qualquer determinação da herança espiritual do profeta ou mesmo qualquer ordenança sobre como deveriam prosseguir seus discípulos. Esse vácuo de poder criou rivalidades dentro do islamismo. De um lado estavam os sunitas que, além do Alcorão, também defendiam como livro sagrado um livro de relatos biográficos do grande líder, as chamadas Sunas. Quanto aos Xiitas, defendiam o uso estrito do Alcorão.

A princípio, os principais discípulos de Maomé ganharam predominância política sobre o legado de Maomé. Abu Bakr, amigo do profeta, assumiu o controle político dos domínios de Maomé, sendo assim o primeiro CALIFA, ou seja, sucessor do profeta.

Abu Bakr morreu em 634 e outro companheiro de Maomé veio a assumir o controle do califado, Omar o Grande. Omar foi assassinado e a crise política enfraqueceu o califado de Meca, enquanto o califado de Damasco se fortalecia. Até o século VIII o califado de Damasco, denominado Omíada, dominaria o mundo islâmico.

A ideia de luta entre o Bem e o Mal no islamismo, incorporada do cristianismo e judaísmo, foi envolta pela ideia de que o Bem, representado pelos seguidores de Maomé, deveriam lutar contra o Mal, qualquer outra denominação religião. Notoriamente, essas lutas levaram a conquista de territórios e fizeram dos líderes religiosos, líderes políticos de muito poder, prestígio e força militar. Essas conquistas levaram a atritos com o mundo cristão desde o século VIII, quando francos e islâmicos enfrentaram-se na batalha de Poitiers, interrompendo a série de conquistas islâmicas na Europa.

Em 750, um golpe de Estado no califado Omíada transferiu o centro do poder islâmico para Bagdá. Era vitória de parentes distantes de Maomé, a tribo de Al Abassi, que governaria o mundo muçulmano até o século XIII, quando tribos turcas passariam a controlar o Oriente muçulmano.




Jerusalém

Nessa fúria de conquistas, turcos seljúcidas tomaram Jerusalém no final do século XI, proibindo a peregrinação de cristãos para a cidade santa. A Primeira Cruzada, convocada pelo papa Urbano II, foi de 1096 a 1099. Foi bem-sucedida, uma vez que os cristãos conseguiram o controle de Jerusalém. Esse controle, no entanto, não durou muito, pois logo perderam a cidade para os turcos.

Entre 1147 e 1149 veio a segunda Cruzada, um completo fracasso, não tendo conseguido, sequer, tomar as cidades controladas por muçulmanos na região da Síria e da Anatólia.

No ano 1187, Saladino, sultão do Egito, tomou controle de Jerusalém, mantendo a restrição de peregrinação cristã. Entre 1189 e 1192 ocorre então a terceira Cruzada, cujo grande expoente foi Ricardo, Coração de Leão. O rei inglês envolveu-se em inúmeras escaramuças, mostrando-se valente em Batalha. Conquistou o respeito de seu adversário e, apesar de não conquistar a cidade Santa, conseguiu um trato com Saladino de abrir Jerusalém para a peregrinação de cristãos por dez anos.

Foram um total de oito Cruzadas, sendo que, da quarta em diante, fiascos seguidos impediram os Cruzados de, sequer, se aproximarem de Jerusalém. Um detalhe intrigante é que no caso da quarta Cruzada, os chamados “soldados de Cristo”, tomaram Constantinopla! Isso mesmo, uma cidade cristã! Motivo pelo qual todos os envolvidos foram excomungados. O fato, entretanto, aponta algo muito importante: as Cruzadas haviam deixado de existir por qualquer motivo espiritual, a questão passava a ser econômica e política.