HISTÓRIA GERAL

18. Reforma Protestante

18. Reforma Protestante

A Reforma Protestante ocorreu ao longo dos séculos XIV e XVI e não pode ser pensada sem os próprios intelectuais católicos que levantaram questionamentos a respeito da própria Igreja, seja no viés administrativo ou mesmo teológico.

Para compreender a postura da Igreja Católica, é importante voltarmos para o século XI, especificamente para o ano 1075. Neste ano, o papa Gregório VII publicou a Encíclica Dictatus Papae. Essa Encíclica, um documento que determina diretrizes teológicas e organizacionais da Igreja, constituiu a autoridade do papa num nível jamais visto anteriormente. Seguem abaixo algumas de suas determinações:

1. Que só a Igreja Romana foi fundada por Deus
2. Que, portanto, só o pontífice romano tem o direito de chamar-se universal. (...)
9. Que todos os príncipes devem beijar os pés somente ao papa. (...)
11. Que seu título é único no mundo.
12. Que lhe é lícito depor o imperador. (...)
19. Que ninguém pode julgá-lo. (...)
22. Que a Igreja Romana não se enganou e não se enganará jamais segundo o testemunho da Sagrada Escritura.

A considerar por essas determinações, a Igreja, bem como o papa, estavam acima de qualquer autoridade na terra, inclusive, acima dos próprios reis. No Sacro Império Romano Germânico, essa postura da Igreja causou desconforto no Imperador Henrique IV, de tal forma que se negou reconhecer as determinações da Encíclica papal.

Gregório VII, numa reação ao desafio de sua autoridade, excomungou ao imperador que viu seus vassalos se rebelarem ao reconhecerem sua queda. Henrique IV teve que encontrar o papa num castelo em Canossa, ao norte da Itália. Com uma manta de lã e pés descalços, o imperador ficou três dias sob neve suplicando o perdão de Gregório VII do lado de fora do castelo. Após três dias, o perdão foi concedido ao Imperador, mas o estrago estava feito. Com a autoridade retomada, Henrique IV passou a perseguir Gregório VII que se viu obrigado a fugir de Roma. O mal-estar entre príncipes e a Igreja ficou conhecido como a QUERELA DAS INVESTIDURAS e durou até 1122.

Em 1122, ocorreu a chamada CONCORDATA DA WORMS, na qual fora decidido que os reis poderiam participar do processo de escolha do clero de seus territórios. Essa decisão pretendia conciliar os poderes temporal e espiritual.

A própria Igreja tentou organizar seu corpo doutrinário com CONCÍLIO DE LATRÃO, em 1139. Duas medidas importantes foram tomadas ali: o fim da Simonia, ou seja, da venda de perdão e outros recursos para salvação e o fim do Nicolaísmo, ou seja, a transferência de cargos eclesiásticos para membros da família, ou arranjos eclesiásticos para a inserção de familiares em altos postos na Igreja. Era uma tentativa de moralização que, como se viu a seguir, acabou se mostrando inócua.

Enquanto isso, hereges apareciam por toda a Europa, especialmente entre o sul da França e da Suíça e o norte da Itália. Valdenses, Albingenses, dentre outros, procuravam praticar sua fé longe dos olhos da Igreja para evitar sua perseguição. Muitas foram as oportunidades em que exércitos atacaram tais grupos a mando da Igreja.

Inquisição

Para lidar com hereges, a Igreja desenvolveu, em 1238, a INQUISIÇÃO, um aparato jurídico que determinava através de um Tribunal, o TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO, os pecados e as devidas punições daqueles que houvessem violado as ordenações da Igreja.

A Inquisição tinha uma lógica pautada em estruturas teológicas peculiares à própria Igreja. Primeiramente, a Igreja defendia a existência de uma alma separada do corpo. Assim, quando ocorria uma eventual tortura, o corpo sofria com a finalidade de purgar os pecados da alma e, assim, dar ao indivíduo uma chance de livrar-se do inferno ou, quiçá, do purgatório. Para garantir que nenhum pecado ficaria para trás, a Igreja sugeria que um pecado conhecido, mas não denunciado, implicaria na condenação de todos os envolvidos, ou seja, todos que soubessem do pecado em questão.

Além da ideia de alma separada do corpo, a Igreja se apropriava também da ideia de que havia um purgatório, espécie de limbo espiritual onde as almas davam uma paradinha para purgar seus pecados antes de irem para o céu. Dessa forma, muitas pessoas davam todas as suas posses para que missas póstumas fossem feitas para retirar a suposta alma do limbo que representava o purgatório.

O sofrimento infringido pela Inquisição ao corpo também tinha uma raiz filosófica. Platão separara corpo e alma e essa perspectiva foi introduzida no cristianismo por Agostinho de Hipona. PARA A IGREJA, DE MANEIRA GERAL, A SALVAÇÃO SÓ EXISTIA POR SEU INTERMÉDIO! Além disso, as punições tinham efeito pedagógico, ao ponto de educar as pessoas sobre o poder da Igreja e a importância de observar seus preceitos.

Por fim, é sempre importante determinar que a Inquisição não tinha, por si só, alçada para retirar a vida ou mesmo molestar indivíduos sem a autoridade do Estado. Em termos puramente jurídicos, alguém poderia afirmar que a Igreja não haveria matado ninguém durante a Inquisição. Porém, as motivações espirituais estavam na raiz de toda decisão política que culminava com a punição capital ou mesmo o sofrimento carnal.


Os Protestantes


A Igreja Católica não parecia estar corrompida apenas em um ou outro lugar. Não parecia, tampouco, que, apesar de normal, por sua incidência, as ações da Igreja fossem toleradas por todos os seus membros. Quando usamos a lupa da História, podemos observar que haviam teólogos de alto gabarito que protestaram contra os problemas da Igreja em inúmeros lugares.


John Wycliff (Inglaterra) 1328 a 1384: Wycliff era formado em teologia e filosofia. Tornou-se doutor em Teologia e passou a defender uma Igreja humilde. Wycliff também defendia que as terras da Igreja deveriam ser transferidas ao Estado, o que lhe confiou grande apoio nacional. No contexto da Guerra dos Cem Anos, qualquer coisa que viesse da França era rejeitada e, justamente neste momento, a sede da Igreja estava em Avinhão, na França. Além disso, Wycliff afirmava que o papa da Inglaterra era Cristo, o que atacava diretamente o cerne de poder da Igreja. O reformador inglês ainda traduziria a Bíblia do latim para o inglês, pregando que a Bíblia deveria ser a única regra de fé e prática cristã. 12 anos após sua morte, seus restos foram exumados e cremados numa forma de reprimenda da Igreja.

Jan Huss (Boêmia)1369 a 1415: Huss era seguidor das ideias de John Wycliff. Foi padre, formado em teologia e filosofia. Chegou a ser reitor da universidade de Praga após a expulsão dos alemães. Huss era crítico da postura opulenta da Igreja. Defendia uma Igreja humilde, tal como fora Cristo e criticava abertamente ao papado. Além disso, pregava em tcheco, algo inaceitável para a Igreja que defendia o uso do latim nas cerimônias. Huss também sugeria o livre uso da Bíblia como autoridade espiritual. Suas críticas o levaram a ser queimado em Constança, no Sacro Império Romano Germânico, após se negar a refazer-se de suas afirmações contrárias ao dogmatismo católico. Historiadores afirmam que Huss morreu cantando um hino.


Martin Luther (Alemanha) – 1483 a 1546: Lutero foi, certamente, o maior expoente da Reforma Protestante. Desejoso de reformar a Igreja, desapontado com o comércio do perdão, Lutero passou a pregar a salvação pela fé em sua paróquia em Wittemberg. Ao saber, em 1517, da chegada do Emissário do papa à sua cidade com o objetivo de incitar a cobrança de indulgências, o monge agostiniano pregou nas portas da Igreja as 95 teses da Justificação Pela Fé. Assim, de acordo com Lutero, o homem seria salvo como fruto do sacrifício de Cristo e não pela Igreja, como esta afirmava. Enfrentou dura resistência eclesiástica, mas sempre apelou à Bíblia e sua consciência. Em 1521 acabou excomungado e foi protegido por príncipes e burgueses que aderiram à sua causa.
Um seguidor de Lutero, Thomas Müntzer, desejava que as terras, outrora da Igreja e absorvidas pelos Estados protestantes, pudessem ser distribuídas para o povo. Lutero nunca aprovou essa ideia e uma série de revoltas camponesas ocorreram. Lutero e Müntzer tornaram-se grandes inimigos.


Jean Calvino (França/Suíça) – 1509 a 1564: Calvino não era membro oficial do clero, mas apresentava-se como um líder religioso e, por suas pregações, várias vezes foi associado à figura de padre. Conforme estudou, Calvino foi se deparando com problemas de ordem teológica e organizacional na Igreja Católica. Ao perceber que a estrutura católica estava comprometida, acabou por rejeitar a possibilidade de reforma e abraçou a ideia de um novo segmento religioso – a Igreja Reformada. Calvino defendia uma Igreja humilde, mas também sugeriu fortemente que a riqueza era fruto do trabalho e, consequentemente, resultado do favor divino. Para Calvino, que foi muito influenciado por Agostinho, o homem já nasce predestinado à salvação ou à perdição. De maneira simplória, poderíamos dizer que o sucesso no trabalho seria, para Calvino, uma evidência da salvação.


Existem muitos outros reformadores, como Ulrich Zwínglio, John Knox e mesmo Jerônimo. Podemos resumir os pontos principais da Reforma nos seguintes itens:

1) JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ: Doutrina que afirma o papel redentor de Cristo para salvar a humanidade. A salvação se deve unicamente aos méritos de Jesus. Essa doutrina afetaria a Igreja frontalmente, uma vez que a Igreja Católica alegava que ela era fundamental para determinar a salvação das pessoas. A Justificação Pela Fé aponta o sacrifício de Cristo como o único meio pelo qual o homem poderia ser salvo, desconstruindo assim, um pilar que justificava a existência da Igreja.

2) SOLA SCRIPTURA: A Bíblia seria a única autoridade espiritual a ser seguida. Essa doutrina confronta o catecismo, manual de diretrizes da Igreja Católica que ordenava diretrizes que interessavam ao clero exclusivamente. Por se tratar de uma interpretação unilateral, os reformistas criticavam o catecismo e sugeriam a consulta da Bíblia como única fonte válida de construção de doutrinas teológicas.

3) MORALIZAÇÃO DA IGREJA: Além das vendas de perdão, como as indulgências, a Igreja arrecadava somas vultuosas de dinheiro vendendo ingressos para a exposição de supostos ossos santos e mesmo de lascas da cruz de Jesus. Padres imorais dirigiam os cultos e compravam cargos eclesiásticos para fazer da Igreja seu rincão de poder familiar.

4) ACESSIBILIDADE DA BÍBLIA NA LÍNGUA VERNÁCULA: A missa e a Bíblia eram dirigidas em latim, o que dificultava o acesso popular ao conteúdo das mesmas. A religião era uma mera formalidade. A ideia de pregar a Bíblia na língua vernácula, ou seja, língua comum, era popularizar o evangelho e levar as boas novas de salvação ao povo comum.

5) FIM DO PAGANISMO: De maneira geral, os reformistas eram muito resistentes ao uso de imagens nos templos católicos. A Igreja Católica sugeria que as imagens eram apenas emblemas, símbolos. Mas os reformistas sugeriam que beijos e procissões indicavam a prática de culto e adoração a imagens.


A Reação da Igreja e a Contra-Reforma


A reação da Igreja não tardou. Entre 1545 e 1562 ocorreu o Concílio de Trento que, entre interrupções e reuniões, determinou a ação da Igreja Católica para impedir o avanço da ideologia protestante.

Entre as medidas tomadas pela Igreja, passou-se a utilizar a Ordem de Jesus – Companhia de Jesus ou Jesuítas – como uma forma de doutrinar de forma mais profunda o clero além de preparar uma mão de obra clerical preparada para um confronto físico se necessário.

Além disso, a Igreja também determinou a retomada, com toda força, das ações do Tribunal do Santo Ofício e da Santa Inquisição.

O alto clero compreendeu com a iniciativa dos reformadores, que era imprescindível garantir uma fé maior dos católicos ao comando da própria Igreja, o que determinou a ação da mesma ao não dar ouvidos a qualquer uma das reivindicações dos chamados “reformadores”.


Estado e Igreja


Como forma de represália a seguidores do protestantismo, a Igreja passou a perseguir e queimar, com aval dos Estados Católicos, seguidores da Reforma como hereges. Como vingança, os Estados que se inclinaram ao protestantismo também passaram a perseguir católicos. O caos implantado no continente europeu foi, parcialmente, interrompido com a chamada PAZ DE AUGSBURGO, cujo objetivo era que o rei determinasse a religião do Estado, dando tempo hábil para que protestantes e católicos migrassem para regiões em que sua fé pudesse ser praticada.

Notoriamente, a PAZ DE AUGSBURGO funcionou por pouco tempo, tendo em vista a volatilidade da crença. Reis se convertiam ao protestantismo ou ao catolicismo, seja por convicção espiritual, seja por conveniência imperial.

Em 1618, as tensões entre reinos católicos e protestantes chegou ao ápice e começou o que viria a ser conhecida como a “Guerra dos Trinta Anos” (1618 – 1648). De um lado, potências protestantes – Dinamarca, Holanda, Suécia, Alemanha. De outro, o Sacro Império Romano Germânico. Os países protestantes compunham uma coligação denominada de LIGA EVANGÉLICA, enquanto católicos compunham a LIGA SAGRADA. A Guerra teve um ponto de mudança quando a França, mesmo católica, passou a apoiar a LIGA EVANGÉLICA. Seu interesse não era religioso, mas sim territorial. A derrota iminente do Sacro Império permitiria à França indexar territórios de seu vizinho. Em 1648, uma série de tratados colocou fim às batalhas entre protestantes e católicos. Esse conjunto de tratados ficou conhecido como a PAZ DE WESTFÁLIA. Em janeiro de 1648 a Holanda tornou-se independente da Espanha e passaria a estabelecer suas companhias de comércio ao redor do mundo.