HISTÓRIA GERAL

26. Era Napoleônica

26. Era Napoleônica

São poucos os personagens que marcaram a História com seu nome. Uma biografia de Napoleão começa com os seguintes dizeres de um relato de época:

François-René de Chateubriand, em suas Memóires d’Outre-Tombe, escreveu que “no quinto dia [maio de 1821], às 17:49, em meio a ventos, chuvas e quebrar das ondas, Bonaparte entregou a Deus o suspiro mais poderoso de vida que já animou o ser humano”. CHANTERANNE, DAVID & PAPOT, EMMANUELLE. Napoleão, Sua vida, suas batalhas, seu Império. 2010: Editora Nova Fronteira.

Napoleão Bonaparte era italiano, nascido na Córsega, tomada pelos franceses em 1768. O fato de a ilha estar sob o domínio francês quando Napoleão nasceu, em 15 de agosto de 1769, não o faz menos italiano. Seu sotaque nunca negou suas raízes. Mas, sua família resolveu, relutantemente, aceitar o domínio francês e desfrutar dos benefícios que isso implicava. Napoleão era o segundo filho de Carlos e Letícia, e viu o pai morrer antes de seus 16 anos. Tempo suficiente para aprender a importância do respeito ao próximo e desfrutar de uma educação de qualidade e, futuramente, adquirir títulos de nobreza. Ao todo foram 8 filhos e Napoleão não poderia se queixar de que a prole dos pais haja prejudicado seus estudos. Afinal, depois de uma boa educação básica, foi para o Colégio Militar em Brienne.

Napoleão compensou a dificuldade com a língua francesa e a rejeição dos colegas com trabalho árduo. Era estudante voraz de matemática, História e Geografia. A liderança era-lhe imperativa e tinha o dom de comandar desde a infância.

Napoleão ganhou crescente experiência militar com os anos, combatendo na fronteira com a Espanha e contra ingleses. Mas, a Revolução Francesa apareceu como um grande divisor de águas na vida de Bonaparte.

Prússia e Áustria declararam guerra à França durante a Revolução com vistas a impedir o avanço dos ideais iluministas para seus países. Luís XVI, descobriu-se mais tarde, colaborou com os inimigos, o que lhe custaria a cabeça. Nesse contexto, Napoleão progredia dentro do exército. Foi na fase jacobina, conhecida como a Era do Terror que Bonaparte apareceu de maneira mais evidente.

Amigo pessoal de Augustín Robespierre, Napoleão deu muitas evidências de compactuar com as ideologias radicais jacobinas. Após a prisão e morte de Maximilien Robespierre, Napoleão chegou a ficar mais de dez dias detido na cadeia. Porém, aparentemente, a ideologia não era um problema e ele progrediu à patente de brigadeiro na infantaria no Exército do Oeste. A Convenção estava chegando ao seu fim e Napoleão foi solicitado a sufocar revoltas monarquistas, cujo objetivo era criar o caos e facilitar a ascensão da Nobreza. Napoleão sufocou o movimento e veio a ascender à patente de chefe do Exército do Interior. Finalmente, Napoleão Bonaparte chegara a um ponto de evidência especial. Nessa ocasião também conhecera Josefina, viúva, aristocrata, mãe de dois filhos, Josefina não era escolha da família Bonaparte. Haviam boatos bem fundamentados de sua vida, digamos, aventureira, para sermos delicados. Napoleão apaixonou-se e casou-se, mesmo sabendo que a esposa não nutria os mesmos sentimentos por ele, pelo menos não na mesma intensidade.

A carreira militar de Bonaparte, entretanto, ia muito melhor que sua vida pessoal. A conquista da Itália e as vitórias no Egito sobre os ingleses e mouros, deu a ele condições de voltar para a França como uma figura muito popular.

Napoleão teria sido solicitado em Paris. A cidade estava prestes a voltar para as mãos dos sanguinários jacobinos. A Áustria, por sua vez, ameaçava as fronteiras da França, após haver retomado a Itália. Napoleão foi nomeado, sob resistência jacobina, como cônsul. O golpe fora preparado por burgueses e até alguns nobres que viam em Napoleão a figura necessária para impor respeito e autoridade política. Sua força junto ao exército era inquestionável. Napoleão fazia parte do Conselho dos 500, mas suplantou o Parlamento ao Proclamar o Consulado. O golpe foi decretado no dia 18 de Brumário (9 de novembro), mas só foi consumado no dia seguinte.

Consulado


Agora como chefe de Estado, Napoleão dividia o poder com Emanuel Sieyés e Pierre-Roger Ducos. Mas o jovem corso, agora com trinta anos, não nascera para a política e a diplomacia. Primeiramente era preciso garantir a Paz externa, afinal, ingleses e austríacos não davam trégua. Ao seu tempo, um de cada vez, os inimigos foram sendo derrotados. David pintou o momento em que as tropas de Napoleão cruzavam os Alpes para atacar os austríacos na Itália. Apesar da imagem vitoriosa pintada por David, os franceses cruzaram os Alpes montados em mulas e Napoleão quase morreu na travessia. Com um número reduzido de soldados, Bonaparte perderia a primeira batalha mas venceria a guerra contra os Austríacos e determinaria uma era de Paz na França. Sua popularidade era imensa e Napoleão chegou a crer que tudo seria possível ao novo governo.

Internamente, o maior objetivo de Bonaparte era criar condições para que a França realizasse a Revolução Industrial. A dependência econômica da Inglaterra deveria estar com seus dias contados.

Tão logo os cônsules tomaram seus poderes, Napoleão destituiu Ducos e Sieyés e os substituiu por Lebrun e Cambacéres, amigos próximos que coadunavam com a autoridade centralizadora dele. Aparentemente o Parlamento ia aceitando o avanço político de Napoleão, tendo em vista que era preferível alguém no poder com a mentalidade liberal de Napoleão do que a volta ao poder dos Bourbon.

O novo CÓDIGO CIVIL da França contava com uma educação laica, liberdade religiosa, separação entre Estado e Igreja, criação do Banco da França e uma longa ênfase na legislação sobre a propriedade privada. A indústria francesa começava a dar sinais de vida e a popularidade de Napoleão parecia não ter fim.

O Império

Atendendo aos interesses do próprio Parlamento, Napoleão lançou um plebiscito no país sobre a possibilidade de tornar-se imperador. Após dez anos da morte de um rei, 60% do eleitorado francês elegeu um Imperador.

Em dezembro desse ano, Barnaba Chiaramonti, o papa Pio VII, viria a Paris coroar o imperador da França. A família Bonaparte era poderosa na Itália e através de uma série de articulações políticas, conseguiu levar Chiaramonti ao trono do Vaticano. Mas os esforços dos Bonaparte viriam com um preço.

Após a cerimônia religiosa matrimonial de Napoleão e Josefina, era a ocasião da coroação. O papa abençoou os símbolos reais e, inacreditavelmente, tomou assento enquanto Napoleão tomava sua coroa em suas mãos e a colocava em sua cabeça, fazendo em seguida a coroação de Josefina. Somente Pio VII e Napoleão sabiam do combinado o que nos leva a compreender o espanto da multidão que assistia a cena.

O recado de Napoleão parecia bastante objetivo: haveria liberdade religiosa, mas a igreja ocuparia meramente o lugar espiritual no Império e nada mais que isso.

Posteriormente Napoleão pediu que David pintasse o quadro da cena de sua coroação. A princípio David pintou o imperador se coroando, mas Napoleão não gostou e pediu que David refizesse a cena. No lugar antes ocupado pela inclinação que Napoleão ocupava no quadro, foi colocada a figura de Júlio César, sim, o romano, ao fundo.

Entre outros detalhes, podemos ver a mãe de Napoleão, numa altura superior, abençoando a cena. No entanto ela rejeitava o casamento de Napoleão com Josefina e se negou a participar da cerimônia, indo para a Itália.

O próprio David aparece no quadro e é o único personagem que olha para o espectador – está na multidão ao centro e ao fundo.

Batalhas e Bloqueio

Napoleão desejava expandir os domínios da França. As razões iam do orgulho do Imperador até a necessidade de mercado consumidor para a indústria francesa em ascensão. A Inglaterra, com quem as relações estavam apaziguadas, mas delicadas, não queria deixar a ilha de Malta, onde a França se julgava no direito de posse. Esse foi o pivô da retomada das escaramuças. A Inglaterra teve o apoio de Áustria, Rússia e Nápoles no continente.

As batalhas se seguiram de 1803 a 1807. O imperador chegou a receber as chaves da cidade de Viena após derrotar os austríacos. No mar, Napoleão foi derrotado na Batalha de Trafalgar em 1805, quando contava com apoio da armada espanhola. Mas no continente Napoleão estendeu seus domínios até a Rússia após a vitória na Batalha de Tilsit. Para garantir a vitória francesa sobre a economia inglesa, Napoleão resolveu então dar uma cartada genial. Proibiu todos os países da Europa de fazerem comércio com a Inglaterra. O episódio ficou conhecido como BLOQUEIO CONTINENTAL. Na Península Ibérica, Espanha e Portugal resistiram ao Bloqueio francês e acabaram invadidos por Napoleão. No caso português, sabemos que a família real deslocou-se para o Brasil, mas na Espanha a situação foi pavorosa. Carlos IV e seu filho Ferdinando VII foram obrigados a entregar o poder da Espanha para Napoleão. Houve resistência popular e as tropas napoleônicas usaram de violência desproporcional. Goya pintou a cena da execução de espanhóis no quadro conhecido como 2 de maio.

Porém a resistência portuguesa – graças ao providencial auxílio britânico que manteve o país controlado após a saída da Família Real – e a saída da Rússia do Bloqueio Continental começaram a abalar a autoridade de Napoleão.

Em 1812, Bonaparte tomou 600 mil homens e se dirigiu para a Rússia. Sem forças para combater um exército tão poderoso, os russos adotaram a estratégia da TERRA ARRASADA, ou seja, queimavam tudo que viam pela frente e fugiam do exército francês. Conforme os homens de Napoleão invadiam a Rússia, tudo que viam eram terra e cinzas. Até ocorreram batalhas eventuais, mas Napoleão chegou a Moscou e ali se estabeleceu somente para ver a população correr e deitar fogo a tudo que estivesse ao seu redor.

Ao perceber a escassez crescente de suprimentos, Napoleão decidiu voltar. Era novembro de 1812 e o inverno russo chegou inclemente. Mais de 500 mil soldados franceses morreram na campanha russa. Antes ainda de chegar à França, os soldados franceses sofreram um cerco em Leipzig, onde morreram cerca de 70 mil homens.

A popularidade de Napoleão estava duramente ameaçada. Para impedir o alastramento de más notícias, decretou a censura à imprensa e não era raro ver violência policial contra manifestantes. A sucessão de guerras desgastou o imperador. Pior, eram guerras perdidas. A pressão do Parlamento também aumentou e, em abril de 1814, percebendo-se abandonado por seus generais, abdicou do trono. Acabou sendo deportado para a ilha de Elba, onde receberia uma renda anual de 2 milhões de francos e seria o soberano.

Congresso de Viena

O mapa da Europa fora completamente transformado pelas conquistas e frequentes guerras de Napoleão. Sua queda implicava em medidas diplomáticas urgentes antes que o espírito de revolta pudesse destruir a França. Em 1815 foi feito o Congresso de Viena, na Áustria, com as lideranças dos países invadidos e prejudicados pelas tropas napoleônicas. Aqui, duas medidas de vital importância foram tomadas.

1)Todos os territórios invadidos por Napoleão seriam reincorporados aos seus domínios originais.

2)Todos os reis depostos seriam alçados ao poder como o deveria ser originalmente.

A primeira medida foi aceita com festa de Portugal a Rússia. Mas a segunda, foi, por muitos, vista com horror. A retomada do Absolutismo seria vista com pavor por onde quer que o iluminismo houvesse se instalado. Na França, Luís XVIII já tentara decretar uma nova constituição que lhe fosse digna.

Cem Dias e Exílio

Napoleão foi informado do espírito dos franceses com o governo de Luís XVIII. Ameaçado constantemente de morte em Elba, Napoleão contou com militares fiéis a ele e voltou para a França. Foi recebido de braços abertos por seus homens e Luís XVIII precisou sair às pressas do palácio das Tulherias – hoje inexistente.

Napoleão acabou com a censura e manteve a declaração de paz com os países vizinhos. Mas, da Bélgica vinham notícias da aproximação inglesa. Para muitos prussianos, austríacos, russos e para os ingleses, o problema não era a França, era Napoleão e não poderiam suportar sua existência à frente do país.

Napoleão não temeu o confronto. A fatídica Batalha de Waterloo entretanto reservava a Bonaparte o fim dos seus dias à frente do governo francês, só que agora, definitivamente. Além da derrota, Napoleão acabou preso e exilado para um lugar de onde seria muito difícil qualquer resistência, a ilha de Santa Helena. Ali Napoleão terminaria seus dias e morreria em 1821.