HISTÓRIA GERAL

33. Revolução Russa

33. Revolução Russa

Desde o século XVIII, o Império Russo demonstrava suas intenções expansionistas. Expandiu-se para o norte e para o Oriente, até alcançar o Oceano Pacífico. Essa política de conquistas territoriais dá a tônica da política russa desde então.

No século XIX, o czar Nicolau I resolveu que as terras ao sul, na região dos Bálcãs, deveriam ser dele, em virtude de estarem sob o controle do Império Turco-Otomano, que profanava a cidade de Jerusalém. Podemos considerar que essa era uma desculpa para incorporar a Crimeia, uma rica região no Mar Negro, sul da atual Ucrânia.

Os interesses russos não afetavam somente aos turcos, mas também a ingleses – que detinham o controle sobre os estreitos de Dardanelos e Bósforo – e ainda os aliados dos Turcos, os Austríacos. Napoleão III, que desejava demonstrar seu poderio militar, também enviou apoio para a guerra, juntamente com o Reino da Sardenha e Piemonte, ao norte da atual Itália. Eram, portanto, Russos, contra Turcos, Ingleses, Franceses, Sardo-Piemonteses e o apoio logístico dos austríacos.

A GUERRA DA CRIMEIA se estendeu de 1853 a 1856, em meio à política dos imperialismos. Os russos acreditavam no seu potencial industrial, mas acabaram se frustrando diante da superioridade militar de seus adversários. Apesar de pequenas vitórias no início, a Rússia perdeu a guerra e ainda seu porto na região de Sebastopol, na própria Crimeia.

O detalhe importante deste conflito é que a partir dele podemos pensar a estrutura industrial e mesmo social da Rússia. Apesar de seu crescimento populacional vertiginoso ao longo do século XIX – chegando a ter cerca de 130 milhões de habitantes – o PIB se convertia num dos mais baixos do continente europeu. As indústrias, concentradas num pequeno número das principais cidades da Rússia, eram basicamente de capital estrangeiro. Entre 80% e 85% da população russa era camponesa e vivia num sistema de dependência dos donos das terras que remete ao sistema feudal! Ou seja, enquanto o Ocidente europeu estava no meio de uma corrida imperialista para domínio de territórios e exportação de produção industrial, a economia da Rússia era essencialmente feudal. Pior, era governada por um Absolutismo que impunha ao país um Estado policialesco, sem liberdade de expressão!

No final do século XIX, começaram a se organizar alguns partidos políticos na Rússia. Eram perseguidos e reprimidos aqueles que apresentavam tendência contrária ao governo dos czares, mas sua existência era um caminho sem volta. Podemos destacar cinco partidos políticos na Rússia nesse momento. Observe o quadro abaixo:



Em sua segunda convenção, em 1903, o POSR sofreu o início de um racha ideológico que seria insustentável em 1912, quando o partido se dividiria. Eram os Mencheviques, de um lado, e os Bolcheviques, de outro. Abaixo estão as diferenças pontuais, de forma resumida dos dois grupos:



Nesse quadro de repressão política e efervescência ideológica-partidária, Nicolau II ainda tinha olhos para o domínio territorial da Manchúria. A região pertencia à China, mas despertava interesse de russos e japoneses. Para os russos era a chance de criar um porto longe do frio congelante, enquanto para o Japão, era a confirmação de sua posição de superpotência hemisférica, afinal, já haviam derrotado os chineses em 1895.

Além de um cenário interno de fome e despreparo logístico, o comando do exército russo não havia aprendido as lições com a derrota na Crimeia, 50 anos antes. A maior parte do arsenal russo estava no Ocidente e o deslocamento de tropas e recursos era lento devido à péssima infraestrutura do país. O Japão, por sua vez, tinha soldados disciplinados e bem treinados e tomaram a iniciativa da Guerra. Entre 1904 e 1905 teve lugar então a GUERRA RUSSO-JAPONESA, que culminou com uma vitória arrasadora do Japão. A paz foi intermediada pelos EUA que ainda acreditavam ser possível impor seu domínio na região.

Domingo Sangrento e Desdobramentos

Em 22 de janeiro de 1905 (de acordo com o calendário russo – 9 de janeiro), uma multidão de operários, camponeses, mulheres, fizeram uma procissão até as portas do Palácio Real em São Petersburgo para pedir Paz e Pão.

As condições de vida iam de mal a pior na Rússia. A baixa produção deveria atender à frente de batalha, enquanto parte da importante mão-de-obra produtiva estava no próprio front. As condições humanas na guerra levaram a uma revolta em um couraçado russo denominado de Potemkin.

Ao perceber a mobilização popular, Nicolau II determinou que sua guarda avançasse sobre a multidão. Morreram mais de noventa pessoas e muitas outras ficaram feridas. A ação brutal do Imperador surtiu efeito profundo entre os trabalhadores que passaram a organizarem-se em torno de agremiações produtivas para administrar posses e produtividade, numa tentativa de atender às necessidades imediatas da população – eram os chamados SOVIETES.

Ao perceber a mobilização da população, mesmo diante de seu aparato repressivo, Nicolau II acenou com reformas políticas, sugerindo a criação de uma Constituição e determinando a criação de uma DUMA, ou seja, uma assembleia que deveria construir um Estado moderno, aproximando a Rússia das potências Ocidentais. Entretanto, a tendência liberal do imperador acabou rapidamente. Ao perceber que seus poderes seriam limitados pela constituição, determinou a dissolução da primeira Duma e criou outra, censitária e subjugada a seus interesses. A primeira Duma durou de 10 de maio a 22 de julho de 1906. A segunda Duma durou de 5 de março a 17 de maio de 1907. A terceira Duma durou de 1907 a 1912 e a quarta, de 1912 a 1917. Todas as Dumas deveriam atender aos interesses Absolutistas de Nicolau II.

Quanto à população, sobrevivia graças ao sistema de distribuição elaborado dentro dos sovietes, cujo centro estava em São Petersburgo, administrado por Trotsky.

A Revolução

Feudal, faminta, com um ego muito maior do que sua real capacidade militar e logística, a Rússia arrastou-se para a I Guerra Mundial, uma guerra imperialista. Foi um verdadeiro massacre. Números são imprecisos, mas sugerem que, por volta do início de 1917, já haviam morrido entre 4 e 5 milhões de russos, entre militares e civis, somente no contexto da guerra. Além disso, a Rússia ainda ardia em fome, tendo em vista os recursos que atendiam preferencialmente ao front. Nem por isso os soldados tinham uma vida digna ou melhor.

As mobilizações populares pela retirada da guerra eram frequentes, mas, entre fins de 1916 e início de 1917 se intensificaram. Como em outras oportunidades, em fevereiro, durante uma manifestação em São Petersburgo, o imperador ordenou que sua guarda esmagasse os manifestantes. Dessa vez, porém, ao se aproximarem da multidão, os soldados aliaram-se ao povo. O palácio foi invadido sem resistência e a família real foi presa.

O gabinete da Duma foi composto e liderado por Mencheviques. Gyorgy Lvov assumiu o comando da Rússia que, desde então, passou a ser insistentemente pressionado internamente a abandonar a guerra. Porém, externamente, a pressão de Inglaterra e França era para que a Rússia permanecesse no conflito a fim de garantir que a Alemanha ainda mantivesse suas forças divididas em duas frentes de combate.

O tempo passava e a Rússia permanecia na guerra. Por ocasião da Revolução de fevereiro, muitos exilados voltaram para o país, dentre eles, Lênin, antigo líder dos sovietes. Lênin fazia coro pela retirada da Rússia da Guerra. Em outubro de 1917, não podendo mais esperar, Lênin liderou a REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE, a fim de garantir o suposto comando popular do país.

Governar o país, porém, seria mais desafiador do que tomar-lhe o poder. Lênin sabia que a situação do país era caótica. Desde então, estabeleceu a chamada NEP – Nova Política Econômica. Tratava-se de uma abertura ao capitalismo, com privatização de várias empresas e estímulo à exportação de grãos. A NEP deveria se estender até 1928, quando então o país fecharia suas portas para o capital estrangeiro.

Após a I Guerra Mundial, uma coligação de países declarou guerra à Rússia com a finalidade de derrotar a revolução, contando ainda com o auxílio do exército branco – menchevique. A heroica resistência bolchevique conferiu ainda mais força à personalidade revolucionária de Lênin. A família real, por sua vez, seria executada.

Em 1922, o conglomerado de países satélites da Rússia que aderiram à Revolução passou a estar subjugados ao Partido Comunista Central. Essa união passou então a ser denominada de URSS – UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS. Lênin, já muito doente, viria a morrer em 1924, deixando o comando da URSS para Josef Stálin. Stálin divergia diretamente de Lênin na prática do socialismo. Para Stálin, a Revolução deveria concentrar-se na URSS, tendo-se como cérebro do socialismo no mundo. Era, portanto, uma visão nacionalista. Quanto a Lênin e Trotsky, defendiam uma Revolução global, na qual a URSS seria fomentadora dos Partidos Comunistas em todo o mundo. A rivalidade entre Stálin e Trotsky levou o líder de ferro a isolar paulatinamente o brilhante intelectual. Em 1940, morando no México, Trotsky acabou assassinado, a mando de Stálin, por um agente da KGB.

Ao final da NEP, em 1928, passaram a ser adotados os Planos Quinquenais, ou seja, ao longo de cinco anos, um setor específico do país receberia investimentos. Apesar da mobilização da indústria soviética gerar empregos, os opositores do regime foram caçados, mortos ou enviados para campos de concentração na Sibéria. Era o modelo de socialismo soviético que duraria até o início dos anos 1990.