HISTÓRIA GERAL

37. Guerra Fria - EUA vs URSS

37. Guerra Fria - EUA vs URSS

A Guerra Fria foi, basicamente, um CONFLITO IDEOLÓGICO entre duas potências que saíram vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Por isso se usa a expressão Guerra Fria, pelo fato de as potências que disputaram o domínio do mundo nunca haverem guerreado entre si.

De um lado, os Estados Unidos, vencedores ricos, que não sofreram perdas profundas comparadas as perdas europeias e representavam o capitalismo como modelo econômico. De outro lado estava a União Soviética, vencedora prática e moral do conflito pois, além de derrotar os nazistas com o preço de muitas vidas, foi o primeiro país a chegar a Berlim. A URSS, porém, estava empobrecida devido ao seu tremendo esforço de guerra.

É difícil precisar em que momento teve início a Guerra Fria, mas podemos dizer que a tensão entre capitalistas e comunistas, que já existia no pré-guerra – mas diminuiu graças às necessidades de ataque conjunto aos nazistas – se acentuou com os momentos finais da derrocada nazista.

Na Conferência de Potsdam, entre 17 de julho e 02 de agosto, Truman, representante dos EUA – afinal Roosevelt havia morrido em abril – tentou renegociar os territórios cedidos à URSS em Yalta, quando Roosevelt ainda negociava a conjuntura europeia do pós-guerra. Stálin, por sua vez, foi enfático em manter as determinações de Yalta.

As Bombas Atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki podem ser consideradas mais do que uma estratégia de guerra. Os americanos se adiantaram no prazo de ataque ao Japão temendo que se a URSS colaborasse na derrota nipônica, exigiriam parte do território japonês. Além disso, serviria como um recado a respeito do potencial bélico americano.

A tensão entre estadunidenses e soviéticos começava a ficar cada vez mais intensa, dificultando o diálogo no pós-guerra. Churchill, em 1946, chegou a afirmar que descia sobre a Europa uma CORTINA DE FERRO, o que sugere que nenhum dos dois lados estava inclinado ao diálogo e que saber o que acontecia nos planos de americanos e soviéticos passava a ser um enorme desafio.





Em março de 1947, Harry Truman intencionava enviar uma ajuda econômica especial para Grécia e Turquia. Para convencer o Congresso americano, foi convencido de que deveria fazer um discurso mais agressivo, que assustasse os parlamentares e os incentivasse a enviar o dinheiro. Foi assim que Truman alegou que o mundo estava dividido entre capitalistas liberais e ditadores comunistas. Esse discurso deu origem ao que se denomina de DOUTRINA TRUMAN.

Obviamente o discurso do presidente estadunidense não foi bem visto pelos soviéticos que retaliaram com o chamado RELATÓRIO JDANOV. Andrei Jdanov, um dos secretários do Partido Comunista Soviético afirmou que os EUA eram uma potência imperialista e desejavam empurrar o mundo para uma nova guerra mundial.

A tensão aumentava especialmente pelo fato de, no imediato pós-guerra, os Partidos Comunistas usufruírem de importantes vitórias legislativas nas eleições dos países que haviam vivenciado o conflito. Além disso, o cenário de destruição, ausência de serviços básicos e produtos essenciais levava várias regiões a uma sensação de caos. A Europa era uma importante parceira econômica dos EUA e a ascensão do comunismo pelo continente poderia dificultar os negócios.

Por isso, em 1947, com a finalidade de impedir o avanço do comunismo nas regiões destruídas pela guerra, o governo americano anunciou o PLANO MARSHALL, que consistia em enviar ajuda financeira para a reconstrução dos países prejudicados pela Guerra. A ideia de reconstruir era verdadeira, mas fundamentalmente intencionava impedir o alastramento ideológico do comunismo. Obviamente, os países centrais no conflito receberam a maior parte dos US$ 30 bilhões enviados para a Europa.

A URSS perdeu, de acordo com historiadores russos, cerca de 8,7 milhões de militares e quase vinte milhões de civis. Os números são incertos, mas os dados mais aceitos giram em torno de 26,6 milhões de mortos e desaparecidos durante a guerra. Além da tragédia das mortes, é uma perda de mão-de-obra significativa para uma país que tinha boa parte de sua infraestrutura no chão, destruída. Esperando receber parte da ajuda concedida pelo governo americano, o governo soviético frustrou-se ao perceber que a ajuda era concedida aos países cujo modelo econômico era o capitalismo.

Como forma de reação, a URSS resolveu então criar o KOMINFORM, uma agência de informações comunista. Agência de informações implicava na criação de espiões que pudessem dizer aquilo que o “inimigo” pretendia esconder. Além da Kominform, o regime de Stálin criou, em janeiro de 1949, o Comecon, uma zona de mercado comum para os países do bloco comunista.

A resposta americana não demorou. Os EUA se uniram à Europa e ao Canadá e criaram a Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN). Ora, é importante que você entenda que tanto os EUA quanto a URSS tinham medo de serem militarmente invadidos ou atacados um pelo outro. A corrida armamentista começava a ganhar espaço com a confecção de material bélico com poder de destruição crescente. Em 1955, a URSS criou sua Aliança Militar, o PACTO DE VARSÓVIA, no qual os países do bloco comunista se uniam em torno da defesa de seu território e ideais.


AS ALEMANHAS E BERLINS


A Alemanha, que a princípio deveria ser dividida em quatro zonas de influência, ficou dividida em duas partes. Os países capitalistas uniram suas partes e, em 1949, fundaram a REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA. De viés capitalista, a RFA tinha sua capital governamental em Bonn. Já a zona de controle soviético, em 1949 passou a ser denominada REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ. A RDA era, portanto, comunista e com capital no leste de Berlim.

Entretanto, na divisão determinada na Conferência de Yalta, Berlim também seria dividida entre capitalistas e comunistas. O problema era o fato de que Berlim estava encravada em território soviético e para que a Berlim capitalista fosse abastecida, era fundamental que aviões levassem suprimentos até a cidade.



Os EUA investiram na Berlim Ocidental, afinal, estava imersa no mundo soviético e, ao mesmo tempo que sofria a tensão com a pressão comunista, era também uma forma de expor as vantagens do capitalismo praticamente dentro do mundo soviético. A mando de Stálin, na Berlim oriental, muitas fábricas foram desmontadas e reconstruídas dentro da URSS. É então plausível que muita gente migrasse da Berlim oriental comunista para a Berlim ocidental capitalista. Mas, em 1961, incomodados com esse “mal testemunho”, foi determinada a construção de um muro que separasse a Berlim capitalista da RDA. O muro de Berlim dividiu a cidade, mas foi um símbolo da fragmentação do mundo em dois blocos rivais e, assim seria até 1990.


Corrida Armamentista


Os EUA já eram dotados do conhecimento da Bomba Atômica durante a Segunda Guerra Mundial, ao ponto de a usarem non final do conflito. Os soviéticos fizeram seu primeiro teste nuclear em 1949. Tomava corpo a corrida armamentista.

Apesar de haver uma ênfase especial nas armas de porte nuclear por seu poder destrutivo, a corrida armamentista atingiu praticamente todos os instrumentos bélicos, inclusive os que envolviam espionagem. De bombardeiros até aeronaves não-tripuladas, submarinos e navios, tanques, metralhadoras, eram desenvolvidos em função da possibilidade especulativa de um confronto direto entre EUA e URSS que nunca ocorreria.

Havia uma tensão constante no ar durante a Guerra Fria no que diz respeito ao uso de armas de destruição em massa. Quem as usaria? Após a detonação da bomba atômica soviética em 1949, em Semipalatinsk, no Cazaquistão, Truman prometeu uma arma mais poderosa ainda, a Bomba de Hidrogênio. Nessa altura, intelectuais – dentre eles Einstein – e organizações pacifistas alertaram para o cuidado com o uso de armas dessas proporções e a possibilidade de eliminação da espécie humana. O medo e a desinformação sobre o inimigo levavam à fabricação de mais equipamentos bélicos. Considerando a velocidade de desenvolvimento de riqueza no capitalismo, é de se supor que os americanos fossem capazes de produzir muito mais equipamento, em muito menos tempo como mostra a tabela abaixo:



Corrida Espacial


O domínio do espaço era importante por dois motivos no contexto da Guerra Fria. O primeiro motivo era óbvio, o militar. Com o domínio de tecnologia que fosse capaz de enviar projéteis de longo alcance, não seria mais necessário enviar aviões bombardeiros que despejassem bombas sobre o inimigo, isso poderia ser feito do próprio território agressor.

O segundo motivo era a comunicação que remete a dois aspectos: a espionagem e a facilitação das comunicações entre o país sede e os seus satélites. Com isso em mente, tanto EUA quanto URSS lançaram-se em pesquisas e os vermelhos saíram bem na frente dos americanos.

Em 1957 os soviéticos conseguiram enviar o primeiro Míssil Intercontinental, o R7, e ainda enviaram dois satélites, o Sputnik 1 – que pesava cerca de 18 quilos – e o Sputnik 2 – que pesava 113 quilos e carregava a cadela Laika. Na época os cientistas soviéticos disseram que a cadela morreu tranquilamente cerca de uma semana após o envio dela ao espaço. Hoje sabe-se que ela morreu de calor e pânico entre 5 e 7 horas após o envio da cápsula ao espaço.

Os feitos comunistas mostravam que os americanos estavam muito atrasados na corrida espacial. Por isso, em 1957 foi criada a NASA - National Aeronautics and Space Administration. Mas a URSS continuava muito à frente e conseguiu, em 1959, fotografar o lado escuro da Lua com o satélite Lunik 1. E, em 1961, a Vostok enviou o primeiro homem ao espaço – Yuri Gagarin.

Somente em 1969 os Estados Unidos conseguiram enviar uma nave tripulada que desceu na Lua. Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua, seguido de Edwin Aldrin, enquanto Michael Collins ficou na Apolo 11 controlando os equipamentos. A partir de então as duas potências rivais viriam a construir estações espaciais para pesquisas e manutenção do material espacial.


A Caça às Bruxas e a Propaganda


De 1947 a 1957, o senador Joseph McCarthy empregou uma dura perseguição a comunistas. Porém, na sua sede por encontrar pessoas infiltradas que espionavam o país, McCarthy vasculhou a vida íntima de inúmeras pessoas, quebrando assim as liberdades individuais e, portanto, infringindo as leis.

McCarthy foi confrontado e acabou se tornando uma figura espúria no Congresso americano, sem, entretanto, perder seu mandato. Atualmente, revisionistas procuram provar que o senador pode sim, haver exagerado nos métodos, mas documentos tem provado que o senador tinha razão quanto a agentes infiltrados em solo americano.

Vítimas da chamada “CAÇA ÀS BRUXAS”, Julius e Ethel Rosemberg acabaram sendo levados para a cadeira elétrica por espionagem paga pela URSS. Posteriormente descobriu-se que apenas Julius era espião, contando, porém, com a cobertura de Ethel.

É interessante notar que a preocupação de consolidar sua posição ideológica dentro de seu território, levou EUA e URSS a usarem mecanismos midiáticos para convencerem o público da santidade de seu regime e demonização do opositor. No caso dos EUA, filmes como Rambo, Nascido em 4 de julho, Guerra dos Mundos, Braddock, Top Gun, dentre outros, criavam uma atmosfera de luta entre o bem e o mal, na qual os Estados Unidos sempre representavam o bem. A lista de filmes é grande, mas os quadrinhos também foram úteis na propaganda anticomunista. A Marvel foi uma ferramenta poderosa para divulgar, através de seus heróis, valores clássicos da Guerra Fria. Na União Soviética o investimento com armas era essencial, mas parte do capital recolhido era também utilizado para demonizar o Ocidente com seus “baixos valores morais”. Para os soviéticos, mentes pensantes eram um problema, a menos que vigiadas constantemente e a serviço do próprio Estado. Por isso, normalmente as propagandas comunistas envolviam o valor do trabalho no campo, a produtividade, o ataque ao fascismo e a crítica aos EUA como potência imperialista.

Não existe um lado bom e um lado mau na disputa da Guerra Fria. Existem potências que, numa luta ideológica cometeram pecados contra a humanidade. Enquanto a economia americana cresceu de maneira fantástica nos anos imediatos do pós-guerra, foi exigido dos soviéticos um volume maior de trabalho para compensar os danos da guerra. A sociedade americana tinha acesso a mais produtos e era fácil adquirir um automóvel, mas a desigualdade social era intensa, especialmente entre negros e hispanos.


Da crise de 1973 ao Fim da Guerra Fria


Com a concorrência de produtos europeus e japoneses, a indústria americana começou a passar por revezes já no final dos anos 1960 com uma balança comercial deficitária. Em 1973, em função da ajuda dos EUA a Israel durante a Guerra do Yom Kippur, os países árabes produtores de petróleo diminuíram a produção e como consequência, o preço do petróleo disparou nos três meses seguintes, chegando a custar três vezes mais caro. Após três anos, o barril que chegara a custar pouco mais de 2 dólares, chegara ao patamar de 34 dólares!

Enquanto na Europa o Estado do Bem-Estar Social prosperava, nos EUA começou a dar sinais de cansaço, bem como no Reino Unido.

No começo dos anos 1980, Margareth Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido, juntamente com Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, Pinochet no Chile, dentre outros, resolveram desenvolver uma política econômica que separava o Estado da economia de maneira intensa. Era o NEOLIBERALISMO. Nesse viés, o Estado permitiria uma economia completamente livre. A princípio, vários funcionários públicos foram demitidos, mas, rapidamente a concorrência do comércio, setor de serviços, escolas, saúde, começaram a gerar empregos.

Enquanto isso, na URSS, Stálin morreu em 1953. Foi sucedido por Nikita Khruschev, que denunciou crimes cometidos por seu antecessor numa tentativa de passar a imagem de seu país a limpo. Além disso, abriu espaço para maior liberdade de expressão nas artes, permitiu o aumento da produção de bens de consumo e se aproximou do Ocidente para, diplomaticamente, diminuir as tensões entre os dois blocos. Essas reformas que visavam a melhoria da qualidade de vida do povo soviético só seriam possíveis com investimentos menores no setor bélico. A aproximação de Khruschev com os EUA tinha também, portanto, uma perspectiva social.

Em 1964, Leonid Brejnev assumiu o comando da URSS e logo diminuiu as poucas liberdades de expressão novamente. Os líderes das empresas estatais começaram a fazer críticas sobre o gerenciamento do Estado. Apesar de várias revoluções marxistas no mundo, especialmente na África, a resistência à gestão do Estado dentro da União Soviética crescia.



Brejnev retaliou os críticos mas era inegável que a indústria comunista não estava conseguindo suprir as necessidades do país, muito menos acompanhar a concorrência com o Ocidente. Além disso, a corrida armamentista ia cobrando seu preço. Mesmo com a diminuição do empenho bélico promovida por Khruschev e depois por Brejnev – denominada de DETÉNTE – a URSS estava em franca derrocada.


O Fim da URSS


Gorbatchev (ao lado) assumiu o comando da URSS em 1985. Para tentar enfrentar os problemas da indústria soviética, defendeu uma melhoria da produção, tanto na quantidade quanto na qualidade. Deu maior autonomia aos gerentes das fábricas para que pudessem demitir e empregar funcionários numa tentativa de impor uma melhoria da produção. Porém, sem liberdade para investimentos e com um parque industrial sucateado a reestruturação ou PERESTRÓIKA, não tinha muito fundamento.

No ano seguinte, em 1986, uma explosão na Usina Nuclear de Chernobyl, em Pripyat, Ucrânia. O comando da URSS sabia que as Usinas apresentavam problemas mesmo de origem técnica, mas sempre guardaram silêncio sobre os riscos. O acidente contaminou muitas pessoas da cidade que precisaram ser evacuadas às pressas, deixando para trás uma cidade fantasma. Os bombeiros e militares que colaboraram no recolhimento dos dejetos radioativos morreram em dias ou poucas semanas após o acidente.

O governo soviético manteve silêncio sobre o ocorrido na Ucrânia, mas ondas de vento levaram a radiação – em intensidade menor – até países do Ocidente, nos quais os contadores Geiger apontaram intensas quantidades de radiação. A crítica internacional foi forte e acabou gerando embaraços mesmo entre a opinião pública soviética. O povo exigia maior transparência sobre os meandros do poder.

Mikhail Gorbatchev acenou então com a GLASNOST – transparência – na qual promoveu a criação de um congresso com as lideranças de cada uma das nações da União das Repúblicas Soviéticas. A transparência permitiu críticas abertas ao regime, ao fato de os líderes políticos terem mais recursos que o povo, ao fato de manteiga, pão, carne só serem obtidos no mercado negro, ao autoritarismo, censura, enfim, a transparência começou a mostrar um Estado comunista falido. Aos poucos, as repúblicas satélite da URSS começaram a se desligar e declarar sua independência. Os chefes conservadores comunistas rejeitavam a Glasnost, mas os militares não tinham mais forças para reagir. A Perestróika não funcionou, mas em contrapartida, a Glasnost prosperou.

Em novembro de 1989 passou a ser permitida a passagem pelo Muro de Berlim entre as duas Alemanhas. A própria população destruiu o muro e Helmut Kohl, chanceler da Alemanha Ocidental apresentou um plano de indexação da Alemanha Oriental que foi imediatamente aceito.

Boris Yeltsin, eleito presidente da Rússia em 1991 retirou seu apoio da URSS. Era o golpe fatal, afinal a Rússia era o mais poderoso país do Bloco Comunista. Em dezembro de 1991, os demais países da URSS assinaram um acordo definindo o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Gorbatchev não tinha mais um país para governar. Era o fim da Guerra Fria.