HISTÓRIA DO BRASIL
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20.09 REVOLTA DA CHIBATA - 1910

20.09 REVOLTA DA CHIBATA - 1910

Depois de 22 anos que a escravidão fora abolida no Brasil, os negros da marinha ainda eram tratados com desrespeito. Eram os únicos que sofriam castigo físico, a surra com o gato de nove caudas, como chamavam a chibata, uma corda grossa com nove pontas nas quais se amarravam lâminas ou chumbo deformado, com pontas. É válido dizer que, no mundo, a prática era praticamente inexistente, insistindo em sobreviver no Brasil, unicamente aplicada a negros.

Mas os negros da marinha não são mais os mesmos negros escravos. Viajavam pelo mundo e mesmo o líder dos negros, João Cândido, já havia estado na Inglaterra e sabia que a prática do castigo físico era um retrocesso que acometia a marinha brasileira.

Em 15 novembro de 1910, dia da posse do novo presidente – Hermes da Fonseca - Marcelino Menezes levou duas garrafas de cachaça ao subirem à bordo do navio Minas Gerais. As garrafas eram para ele e para o dedo-duro do navio. Descoberto, Menezes reagiu e feriu um marinheiro. Preso, foi condenado à chibata.

No dia 16, todos os marinheiros foram convocados e ficaram em formação para assistir ao castigo. 25 chibatadas era o limite que qualquer marinheiro poderia aguentar. Ninguém ultrapassava essa medida. João Batista das Neves, conhecido por sua truculência nos castigos não deu apenas 25, mas 250 chibatadas. Era o limite para os negros. Nos dias seguintes, soba liderança de João Cândido, o almirante negro, os revoltosos se organizaram.

No dia 22 de novembro a revolta começou. A princípio os navios deveriam apenas ser tomados e os comandantes serem feitos reféns, mas a revolta saiu do controle e viu-se um banho de sangue. Os corpos dos marinheiros mortos foram levados à praia e expostos na areia. As exigências eram objetivas: salários compatíveis com os dos marinheiros brancos, permissão para ascensão e fim dos castigos físicos. O encouraçado Minas Gerais recebeu apoio de outros navios, o Deodoro e o São Paulo. A cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e a ameaça era destruí-la, inclusive o palácio do governo caso as reivindicações não fossem aceitas.

No dia 25 a Revolta chegara ao fim com Hermes da Fonseca reconhecendo as reivindicações dos revoltosos e acatando suas exigências. Porém, apesar de perdoados, no dia 28 de novembro os oficiais envolvidos na revolta foram expulsos da corporação. Pior, no dia 10 de dezembro, fuzileiros alojados na Ilha das Cobras também se rebelaram. Para demonstrar que nada tinham que ver com essa revolta, os companheiros de farda dos navios Bahia, Minas Gerais e São Paulo bombardearam a ilha. Hermes da Fonseca não suportava mais rebeliões e ordenou a represália dos revoltosos. Os marinheiros anistiados no dia 25 de novembro tiveram sua anistia revogada e foram presos.

Na biografia de João Cândido, de Alcy Cheuiche, conta-se que o almirante negro foi preso num cubículo com outros 17 prisioneiros e foi jogado cal. Só João Cândido sobreviveu. Posteriormente foi enviado para um sanatório por três médicos da marinha mesmo com os relatórios afirmando que não era louco.

Enviado para o Acre em dezembro, João Cândido viu companheiros de revolta serem fuzilados e seus corpos serem jogados ao mar no dia 1º de janeiro de 1911. Seria liberto apenas em 1914 e morreria miserável e pobre, de câncer, numa favela do Rio de Janeiro, em 1969.