HISTÓRIA DO BRASIL
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10. BANDEIRISMO NO BRASIL

10. BANDEIRISMO NO BRASIL

A Capitania de S. Vicente tinha uma das menores populações da colônia. Ali se fixaram colonos que muitas vezes mal falavam o português. Plantavam e criavam animais para seu sustento, mas era no apresamento de índios que residia sua principal atividade econômica. Estamos falando dos bandeirantes.

São Paulo foi fundada em 1554 e ali não viviam mais de três mil pessoas. Tendo em vista que a população da colônia se concentrava no nordeste, toda a atenção da metrópole estava voltada para o centro econômico da produção de açúcar, assim, quem morava em São Paulo, não só estava distante de medidas afirmativas da Metrópole como também estava distante das leis da mesma. O direito permanecia “inerme”.

A princípio o bandeirismo foi defensivo, ou seja, sua utilidade era proteger os colonos e os recursos que partiam do Brasil para Portugal. Entretanto, o uso da mão de obra escrava indígena incentivou os bandeirantes a desbravarem o interior do território colonial em busca de índios. Há historiadores que dizem que esses índios eram usados em engenhos no Nordeste. Outros defendem que esses índios eram utilizados na capitania de S. Vicente mesmo.

Não é possível determinar se os bandeirantes eram heróis - tendo em vista sua penetração no hostil sertão colonial – ou vilões – tendo em vista a perseguição sistemática a índios. Heróis ou vilões, precisamos levar em consideração alguns fatos importantes. A grande maioria dos bandeirantes era composta por índios. Mesmo os líderes das bandeiras eram de origem indígena direta ou tão miscigenados que mal falavam o português, caso de Domingos Jorge Velho. Além disso, era prática de várias tribos colaborar com a perseguição de bandeirantes a outras tribos pois eram recompensados com “peças” inimigas para suas tribos.

Costuma-se diferenciar as expedições ao interior da colônia em Bandeiras e Entradas. Apesar de ser uma expressão que tende ao desuso, a diferença está basicamente nos interesses. Enquanto as bandeiras eram expedições patrocinadas por particulares, com intenção de buscar ouro, as entradas eram patrocinadas pela Metrópole que tinha a intenção de mapear o território, basicamente com a finalidade de encontrar ouro também. As bandeiras contavam com lusos-brasileiros ou mesmo indígenas, enquanto as entradas normalmente contavam com soldados da metrópole ou portugueses já habituados ao clima colonial.

Em 1580, quando foi constituída a União Ibérica, o Tratado de Tordesilhas perdeu completamente o sentido. Os bandeirantes, que já não respeitavam muito o Tratado, resolveram penetrar o sertão da América de dominação Ibérica. Com o fim da União Ibérica, em 1640, a Espanha desejava que o Tratado de Tordesilhas fosse retomado. Com a Igreja Católica como intermediária, Portugal conseguiu manter a posse dos territórios explorados pelos bandeirantes graças a um recurso jurídico conhecido como Uti Possidetis, ou seja, a posse seria garantida para quem possuísse de fato o território. Assim, podemos dizer que uma das consequências da União Ibérica foi o aumento significativo de terras sob a posse de Portugal.

Independentemente da utilidade ou do local em que a mão de obra indígena seria aplicada, os jesuítas sempre se posicionaram como grandes inimigos da utilização dos índios como mercadoria. Isso provocou muitos atritos entre os padres e os bandeirantes. Em 1640 a hostilidade entre os dois grupos levou os jesuítas a ameaçarem os bandeirantes de excomunhão caso não parassem com a escravização dos nativos. Em resposta, os bandeirantes promoveram a chamada Botada dos Padres para Fora. Essa expulsão dos jesuítas da capitania de S. Vicente não foi suficiente para diminuir o ardor com que os jesuítas defendiam sua causa. Os jesuítas expulsos de S. Vicente deslocaram-se para a região do Tape, ao sul, e para leste, onde hoje fica o Paraguai. Na fúria por mais “peças”, bandeirantes aventuraram-se para o interior através do rio M’bororé. O que os exploradores não contavam era que dessa vez os índios estavam armados e organizados, justamente pelos jesuítas. Eram 3 mil bandeirantes contra 4 mil indígenas. A Batalha de M’bororé foi vencida pelos índios e, além disso, uma de suas consequências foi o afastamento dos bandeirantes e eventualmente a posse das terras que hoje pertencem ao Paraguai, para a Coroa espanhola.

Em 1648 Portugal retomou o porto de Luanda, fonte importante para o comércio de negros escravos que estava sob o controle dos holandeses desde o processo de ocupação flamenga no nordeste brasileiro. Com a retomada do fluxo de negros para sua colônia, a Coroa voltou a pressionar os bandeirantes pelo fim do uso de mão de obra indígena. Muitos índios continuaram sendo escravizados, mas certamente a medida da Coroa enfraqueceu terrivelmente o tráfico de índios.

Era hora de tentar novos rumos. Com o declínio das bandeiras de apresamento, muitos bandeirantes passaram a praticar o chamado bandeirismo de contrato. Eram contratados para invadirem o sertão atrás de especiarias ou mesmo atrás de escravos fugitivos. Foi assim que Domingos Jorge Velho acabou perseguindo o Quilombo dos Palmares. De acordo com alguns historiadores, o reduto de escravos fugidos chegou a contar com trinta mil habitantes!

Por ser um grupo de ex-escravos organizados, o Quilombo oferecia um confrontamento de autoridade com a Coroa portuguesa. Jorge Velho foi chamado para acabar com o reduto. Negociações com Ganga Zumba para a libertação dos quilombolas foi visto como traição e o líder do Quilombo foi envenenado e morto por seus companheiros. Zumbi foi alçado a líder do grupo e começou uma guerrilha. Em 1695 foi encurralado e morto.

Mas perseguir ex-escravos ou destruir Quilombos não estava nos planos de todos os bandeirantes e retomaram a busca por metais preciosos com toda a força. Começam então a surgir as Bandeiras de Prospecção. Finalmente, em 1693, Bartolomeu Bueno da Silva encontrou jazidas suficientemente boas para serem exploradas. Começaria o ciclo da mineração no Brasil.